Um SNS mais preventivo e mais digital
A digitalização ou, melhor, a insuficiente digitalização do SNS, começa a ser tema estafado ainda que a cronicamente adiada disponibilidade de um registo de saúde eletrónico universal mereça todas as chamadas de atenção e mereça, sobretudo, melhor empenho e maior capacidade de realização por parte de quem tem responsabilidades e condições para fazer acontecer. O está quase, já dura há demasiado tempo.
Com mais ou menos desgaste que o tema possa apresentar, do que todos não temos dúvidas é de que os caminhos da saúde passam muito por aqui. Os caminhos do presente e os caminhos do futuro, onde ambicionamos uma saúde ainda mais responsiva às nossas reais necessidades e, para isso, sustentável e renovada.
Ora, parece por demais evidente que essa renovação vai estar muito suportada na digitalização e no uso inteligente dos dados e vai ter de estar verdadeiramente focada e centrada no paciente e no cidadão. A prestação deixará de ser hospitalocêntrica e será muito mais distribuída, privilegiando os cuidados domiciliários e de proximidade, porque desenhada para responder sobretudo à doença crónica em vez da oferta atual basicamente concebida para dar resposta a episódios agudos. Estará orientada à saúde e não à doença e, naturalmente, focada na prevenção e na predição.
Nesta, que não pode, por enquanto, deixar de ser considerada como uma visão, mais do lado da Alice no país das maravilhas do que da dura realidade, o ecossistema da saúde estende-se cada vez mais, e bem, a áreas contíguas como a alimentação, o desporto, ou a ocupação ativa dos tempos livres, no que isso representa de novas respostas e soluções, onde ganham peso as preocupações com os nossos estilos de vida. Sim, não há mais lugar para dúvidas de que significativa parte das maleitas que perturbam a saúde e a qualidade de vida de cada um de nós e que, consequentemente, impactam - de forma assustadoramente crescente - os custos que coletivamente suportamos, estão diretamente associadas às opções que todos os dias fazemos, ou não fazemos, quanto ao nosso comportamento.
Uma conclusão que se pode retirar, já muito consensual, mas ainda pouco assumida, é a de que está muito nas mãos de cada um o desempenho e a sustentabilidade dos sistemas coletivos de saúde.
E aqui há mesmo muito a fazer porque muito pouco tem sido feito, ainda que sejam visíveis alguns sinais encorajadores. Destes, destaco a atenção generalizada que esta temática passou nos tempos mais recentes a merecer nas preocupações e prioridades das autarquias locais.
Quero crer que muito de bom vai acontecer nesta linha onde desejavelmente assistiremos não a uma, mas a várias mudanças dos paradigmas com a entrada em cena de novos atores, com novas abordagens, onde o cidadão assume cada vez mais o papel central e onde a tecnologia assegurará a cola e a integração das várias dinâmicas em presença.
Em tempos de Natal o meu sonho é o de muito em breve qualquer um de nós poder ir ao seu médico de família e este ter a possibilidade de receitar um plano de manutenção da nossa forma física, por exemplo, dos que a câmara municipal disponibiliza ou incluir-nos num programa de telemonitorização da tensão arterial o que, entre outras vantagens, diminuirá a frequência das nossas visitas ao centro de saúde. Tudo isto integrado, à distância de um clique, num SNS mais digital, mais responsivo e muito mais sustentável.

