A pouco mais de uma semana das eleições presidenciais e com os candidatos na estrada, a campanha eleitoral para o mais alto cargo da nação cruza-se com temas que são mais apropriados para quem quer ser primeiro-ministro. É natural, porque há uma tematização na esfera pública (política) a que um PR não poderá ser imune. O mais bizarro é o registo dominante que tomou conta do discurso dos candidatos: arrogante, mal-educado, crispado.
Com um Executivo blindado relativamente a eleições antecipadas, esperava-se que este fosse um tempo para um debate com elevação sobre o papel do presidente da República enquanto garante da independência nacional e do funcionamento democrático do país, defensor da constitucionalidade do edifício jurídico nacional, moderador dos poderes políticos e fiscalizador do Governo. Em vez disso, os eleitores têm sido confrontados com ataques pessoais, comentários agrestes sobre os adversários e uma retórica que alimenta a divisão dos cidadãos.
Talvez esta escalada verbal siga um certo ambiente contaminado que domina as redes sociais, mas é preciso perceber os riscos que tal tendência comporta ao atirar para as margens do debate uma reflexão séria que nos mostre quem, na verdade, está mais bem preparado para ser presidente da República. A poucos dias das eleições, conhecemos quem gosta mais do confronto, quem é mais capaz de colocar as trocas verbais no clímax da tensão, mas talvez ainda não tenhamos investido tempo para perceber quem ocupará com maior dignidade e competência o Palácio de Belém.
Por estes dias, percebemos que a polarização está a tomar conta da campanha eleitoral. A oscilação nas sondagens torna muito obscuro o resultado mais provável. Por isso, os próximos dias poderão ser determinantes, sobretudo para influenciar os indecisos. Cada um dos candidatos sabe isso e os respetivos estrategas da campanha estarão agora a afinar táticas. Na rua, nos média e nas redes sociais, cada candidato apurará aquilo que quer transmitir, que será sempre muito influenciado por aquilo que dizem e fazem os opositores e por uma atualidade noticiosa que entra em permanência na campanha. Tudo será feito a pensar nos eleitores.
No fundo, uma campanha eleitoral mostra aquilo que cada candidato é, mas, acima de tudo, coloca diante de nós um espelho perfeito daquilo que o eleitorado procura, ou seja, a urgência de respostas rápidas, a atração pelo espetáculo e a dificuldade em ouvir argumentos que exigem reflexão demorada. Que este seja o tempo para pensar melhor quem queremos para presidente: alguém que inspire confiança, modere a discórdia e eleve o debate ou apenas quem nos faça perder no eco de um ensurdecedor ruído.

