O conflito na Ucrânia, que já dura há quatro anos, consolidou-se como uma das maiores tragédias do século XXI. Somando as baixas dos dois lados da barricada, poderemos estar a falar de pelo menos 580 mil mortos. Basta ler as visões contrastantes dos embaixadores ucraniano e russo, em Lisboa, que o JN publicou no domingo, para percebermos que não há apenas um ponto de clivagem. No centro da narrativa de Moscovo, a atual liderança em Kiev é vista como uma construção artificial do Ocidente. O Kremlin classifica a revolta da Praça Maidan, em 2014, como um golpe de Estado que derrubou o então presidente pró-russo Viktor Yanukovych, instalando um regime hostil ou, como gosta de dizer, "nazi". A intervenção da Administração de Obama no cenário político ucraniano é confirmada por várias fontes credíveis. Parecendo estar com remorsos, o Ocidente, sobretudo a Europa, fez de conta que a anexação da Crimeia pela Rússia, em 2014, era algo de natural. Erro crasso, como se viu quando as tropas russas invadiram a Ucrânia em 2022, rumando, sem sucesso, diretamente para Kiev.
Atualmente, a Rússia reforça a tese da ilegitimidade de Zelensky, argumentando não só com a origem do poder pós-Maidan, mas também com o facto de o seu mandato constitucional ter expirado em maio de 2024, sem a realização de eleições devido à lei marcial, facto relativamente corrente quando decorre uma guerra.
Como teorizou Zbigniew Brzezinski, sem a Ucrânia, a Rússia deixaria de ser um império euro-asiático para se tornar um Estado que, embora relevante, se tornaria puramente asiático. Do lado oposto, Kiev e os seus aliados veem Maidan como o nascimento de uma democracia que escolheu o caminho europeu. Para os ucranianos, a invasão é uma agressão imperialista. Onde está o político que prometeu acabar com tudo isto em 24 horas? Na Casa Branca.

