Por estes dias, chegaram novos dados que procuram interpretar os impactos da pandemia no sucesso dos alunos. Leituras aos resultados que têm vindo a ser publicados pela Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC) suscitaram a pergunta sobre se afinal a pandemia teria impactado positivamente o sucesso dos alunos. Só esta formulação devia fazer corar de vergonha qualquer pessoa. Basta estarmos atentos ao que se passou pelo Mundo fora, com escolas fechadas e alunos em casa, e a diagnósticos de penalizadoras perdas de aprendizagem para milhares de crianças, para ficarmos, desde logo, indignados com qualquer tentativa de considerar o mais nefasto evento para a educação nas últimas décadas como, afinal, um acontecimento positivo.
Portugal pode dar-se ao luxo de ter este tipo de interpretações porque ainda hoje não sabe o impacto que a pandemia teve na perda de aprendizagem de milhares de crianças. Como não há dados fidedignos, além de nos lamentarmos por essa trágica evidência, ainda temos de assistir a este tipo de recriações históricas que atestam o tom displicente e irresponsável com que se lida com a educação em Portugal. Nem os recentes dados conhecidos, em que dois terços dos alunos (66%) que no último ano letivo frequentavam o 2.o ano de escolaridade tiveram um desempenho na leitura muito baixo ou abaixo da média, fizeram soar as campainhas de alarme. O silêncio conformista e resignado com que o país lida com esta hecatombe na vida de milhares de crianças é aflitivo.
Um dos mais cabais exemplos do caráter recreativo com que o país lidou com a recuperação dos alunos depois da pandemia está no fim do crédito de horas para apoio e reforço de aprendizagem. Os diretores até vieram alertar para o risco de esta opção comprometer a real e efetiva recuperação de aprendizagem. Mas a justificação do Ministério da Educação já estava preparada: não havendo financiamento europeu, não há financiamento da medida. É este o ponto onde estamos: dependentes de Bruxelas para salvar a aprendizagem de milhares dos alunos. O Orçamento do Estado mantém esta anormalidade, não será, por isso, uma prioridade para o Governo. As crianças não votam, mas dentro de alguns anos poderá ser claro o pesado custo desta opção política. Pesado para as crianças e para o país. Um país onde há quem admita ou questione sobre se a pandemia foi afinal boa para o sucesso escolar. Há perguntas que ofendem. Esta, pelo menos.
