Pode um candidato a primeiro-ministro ser o mais votado e ainda assim perder as eleições? A longa noite de apuramento e o país partido que os resultados revelam são a prova disso mesmo. Será difícil a Luís Montenegro governar com uma maioria tão escassa, ainda que somada aos deputados conquistados pela Iniciativa Liberal, e com os socialistas tão próximos em percentagem e em número de deputados. O novo ciclo político inicia-se com um Executivo enfraquecido na sua legitimidade.
A forte participação dos eleitores, invertendo o ciclo de subida da abstenção dos últimos anos, foi uma boa notícia para a democracia, mas nem por isso evitou o desencanto com outros sinais que a fragilizam. O país zangado e desiludido com a falta de soluções para os problemas mobilizou-se no voto do ruído e do protesto. Não sendo propriamente uma surpresa à luz do que as sondagens iam alertando, a subida explosiva do Chega entrega-lhe um poder de alcance ainda difícil de medir.
Mesmo que venham a ver encontradas por PSD e PS estratégias para esvaziar o seu espaço de manobra, o partido de André Ventura mostrou a sua capacidade de implantação territorial. Só não elegeu em Bragança e afirmou-se como segunda ou mesmo primeira força política na metade sul do país. Não será o fim do bipartidarismo, mas é pelo menos a afirmação inequívoca de que um partido ainda médio ameaça esse equilíbrio tradicional. Confirma-se também que há cada vez menos fidelidade ideológica e que deixou de haver espaços de esquerda ou de direita, tal a viragem observada em distritos como Setúbal.
Como já se esperava, a governabilidade levanta muitas interrogações e incertezas. Se num primeiro momento a viabilização de um Governo minoritário da AD está assegurada, o teste decisivo será a votação do Orçamento do Estado (OE). Nessa altura será mais difícil para os socialistas darem a mão ao Governo de direita, ainda que uma parte do partido possa defender essa estratégia para evitar que o papel decisivo seja deixado ao Chega.
Caberá também a Marcelo Rebelo de Sousa um papel de peso, gerindo equilíbrios precários e exercendo a sua magistratura de influência. Caso sobreviva ao teste no final deste ano, o próximo Governo poderá também atravessar 2025, uma vez que na altura da votação do OE para o ano seguinte Marcelo Rebelo de Sousa já não poderá dissolver o Parlamento.
Num momento de viragem à direita, a Iniciativa Liberal não cresceu o suficiente para se mostrar decisiva. À esquerda, o Livre foi o principal vencedor, com um crescimento que premiou a imagem de seriedade e coerência transmitida pela campanha de Rui Tavares. Em sentido inverso, o PCP teve mais uma queda abrupta e torna-se difícil continuar a negar a anunciada morte. Mariana Mortágua não mostrou nas urnas a capacidade de afirmação nas ruas, embora tenha mantido o espaço do BE, e o PAN conseguiu a custo segurar o mandato de Inês Sousa Real.

