
Só se lembram de Santa Bárbara quando troveja, dizia o povo, e agora bem podemos repetir que só nos lembramos dela quando o fogo queima, o vento venta, a chuva chove, a maré mareia, Santa Bárbara de Nicomédia, protectora contra tempestades, raios e trovões, barreira do fogo e da água, padroeira de mineiros, bombeiros, arquitectos, pedreiros, prisioneiros, creio que, depois dos meses de incêndios de 2025 e destas últimas semanas ciclónicas, cheias de morte e destruição ao entrar 2026, a humidade se infiltrou em mim, a água subiu-me à cabeça e inundou-a de vulgaridades, até apetece, vejam que tristeza, fazer um trocadilho que é: volta a ser, jovem Bárbara, a virgem de Nicomédia, estamos fartos de Nitragédia até ao pescoço... Mas, dizia o grego Aristóteles, comédia e tragédia escrevem-se com as letras do mesmo alfabeto.
Santa Bárbara, protege também o bombeiro que vi há dias no tribunal, faz parte do teu caderno de encargos celeste ajudar a família de um profissional que foi destruída por outro líquido, não a água mas o álcool, o homem que ouvi chorar assim, numa gravação posta a correr:
- Eu perdi o amor da minha família! Foi o álcool, o álcool destrói tudo!
E acrescentava:
- Tudo o que ganho ia para a Fátima, tudo! Eu quero ser um homem feliz!
Um homem feliz. Uma mulher feliz. O caso de João e de Fátima parece uma enciclopédia de zoologia e pecuária. Contando os animais, do lado dele sobre Fátima temos uma vaca, uma cabra, uma porca e uma cadela. Do lado dela sobre ele, na parte João desta quinta, há um javardo, um cabrão, um corno, um burro e uma besta de que não foi possível apurar a espécie.
João, em pé no banco dos réus, usou as mãos grossas para subir a calça, mostrava um alto que lhe circulava o tornozelo, debaixo da peúga preta:
- Eu não sei o que ela quer! Eu tenho pulseira electrónica, como todos nesta sala sabem, e ela disse-me "vais tirar a pulseira e vamos viver juntos outra vez". Ela é contraditória e não percebo o que ela quer. Depois de nos divorciarmos ela é que quis casar comigo outra vez mas chegámos lá e já não queria!
João, um homem vigiado por pulseira e que tem de responder a perguntas sobre coisas que nunca deveriam ser ditas, quanto mais repetidas em voz alta num tribunal, onde o escândalo não é dizer as coisas horríveis, é não as repetir para fazer prova. Mas João era arguido e só as testemunhas são obrigadas a dizer verdade toda, palavra por palavra, sob pena de crime, a pessoa acusada pode mentir em defesa própria:
- Cuspir na cara, não cuspi. Só lhe chamava puta porque ela me chamava cabrão.
- Só?, repetiu a juíza.
- Exactamente, sim senhora.
- Nunca lhe bateu com o cabo da vassoura?
- Não.
- E pontapés?
- Não.
- E com um extintor de neve carbónica com mais de dois quilos? (sim, a juíza perguntou isto...)
- Nunca.
E por ali seguia o caso, não lhe partiu um dente a ela, o dente é que caiu da placa que ele, aliás, pagou, e também não introduziu um dedo no ânus da mulher, acusando-a de ter um amante, pelo contrário, ela é que lhe disse: "A vergonha não é minha, é tua, eu tenho um amante". Porque ela, acusou o homem, também era alcoólica e às vezes "hibernava dois, três, quatro dias", voltava a sair e deixava dívidas nos cafés, que ele tinha de cobrir, ou resgatá-la à esquadra, ou esperar por ela já de manhã para ouvi-la dizer: "Nunca te vou contar a verdade".
Então, cansado da enxurrada de contradições, o advogado de João pediu desculpa à juíza por interromper e informou que João não ia dizer mais nada, ia mas é calar a boca, e ele assim fez, antes de se afogasse. Mas esqueciam-se de que havia a gravação antiga e o tribunal pô-la a correr:
- Foi o álcool, o álcool destrói tudo!
Ingrid, Joseph, Kristin, Leonardo e já aí está a doida da Marta. Santa Bárbara das alterações climáticas lhes valha. E a todos nós.
*O autor escreve segundo a antiga ortografia
