A estatística assusta e deve envergonhar-nos a todos: com mais um homicídio na via pública, ontem, em Felgueiras, o número de mulheres assassinadas por atuais ou ex-companheiros em menos de seis meses sobe para 13, já próximo do registo total de 16, em 2021.
O ano ainda não vai a meio e começamos a perceber que a dura realidade se agrava. A violência doméstica é um problema dramático em Portugal, que deve ser combatido com todas as forças, sem olhar a meios e desde o berço.
Uma situação tão grave tem sempre vários catalisadores, mas décadas de ditadura ajudarão a explicar a forma como ainda hoje se aceita com normalidade, nalgumas franjas da sociedade, que a mulher desempenhe um papel menor. Mesmo que nos pareça ridículo, continua a acontecer, pelo que só educando gerações inteiras se poderá corrigir a situação. O contexto familiar nem sempre é o mais favorável, porque o exemplo pode não ser o melhor. Resta-nos, sobretudo, as escolas, onde muito pode ser feito, apesar de nem todos concordarem com as aulas de Cidadania.
É importante que quem contesta a disciplina tenha noção que a maioria dos jovens acha legítima a violência do namoro. Sete em cada dez encaram com normalidade o controlo ou a perseguição na relação. Acresce que metade dos inquiridos num estudo promovido pela Comissão para a Igualdade de Género admitem ter sofrido algum tipo de violência do namoro. Perante estas conclusões, está bom de perceber por onde deve começar o combate contra este atraso civilizacional.
Além de ser fundamental punir os agressores - em vez de desculpá-los, como por vezes acontece em sentenças que têm tanto de chocante como de pré-históricas -, e reforçar mecanismos de denúncia, nenhuma medida se tornará suficiente se o Estado não atuar em força nas escolas.
*Diretor-adjunto
