A rainha de Inglaterra cancelou a festa de Natal do seu pessoal (...) Quanto poupou? Uma ninharia. Mas são gestos destes que ajudam a levantar o moral de um povo deprimido.
A visita do Papa ficou-nos por um dinheirão. A cimeira da NATO, em Lisboa, vai custar-nos um balúrdio. A reunião do Banco Central Europeu levou-nos mais de 36 mil contos. O Dia Nacional da Defesa saiu caro. Estes são apenas alguns dos muitos eventos que de vez em quando fazem sair dinheiro dos cofres do Estado. Mas tem que ser, dir-se-á, são assim a jeitos de "despesas de representação" dos quadros das grandes empresas. Afinal, "noblesse oblige" ...
E outros gastos há de interesse nem sequer discutível. Um canal de TV apresentou um trabalho sobre o que câmaras municipais despendem em medalhas, galhardetes e... cartões de Boas-Festas. Parece uma ninharia, mas no final do ano são dezenas ou centenas de milhar de euros. São rios de dinheiro? De modo nenhum! Diria que não passam de riachos de dinheiro. Não têm expressão em termos do OE - mas fazem mossa na sensibilidade de mais de 10% da população.
Aquela que vive no limiar da pobreza, ou mesmo abaixo desse limiar. Os jovens que fazem nas escolas a que por vezes é a sua única refeição diária digna desse nome. As 2143 famílias que, até final de Setembro, tinham apresentado na Deco processos de sobreendividamento que as forçam a cortar na comida e na farmácia. Aqueles que ao fim da tarde (e não são farroupilhas!) remexem nos caixotes do lixo dos supermercados.
Toda essa gente não pode deixar de pensar, com indignação, que o Estado ou as autarquias esbanjam onde poderiam conter-se um pouco mais. A rainha da Inglaterra cancelou a festa de Natal do seu pessoal porque "foi considerado oportuno mostrar uma certa contenção". Quanto poupou? Uma ninharia, apenas euro57 mil. Mas - admitamo-lo! - são gestos destes que ajudam a levantar um pouco o moral de um povo deprimido.
