Vem de longe o gosto pelas panorâmicas desafogadas. Mais recente é o triunfo dos interesses imobiliários sobre o emaranhado legislativo que pretende fazer (de conta) ordenamento do território.
Há dias, no lugar que foi da seca do bacalhau, em Canidelo, pude apreciar como os edifícios aparecem aí como cogumelos, apesar de sujeitos a vento e humidade fortes, do seu afastamento de comércio e serviços ou de incomodarem os outros na sua proeminência.
Ao olhar daí para o Douro percebe-se a multiplicação de prédios na parte terminal do rio. Na forma de pacotes de cereais, ao alto ou deitados, às vezes mesmo ao pé da água, mostram a avidez da paisagem pelo "mercado": leia-se, do interesse particular (quase sempre contra o interesse coletivo).
Entretanto, desapareceram arvoredos, pequenas casas, interessantes instalações industriais e até as "torres do Aleixo", porque, como é sabido, de acordo com as leis do mercado, os pobres não têm direito a paisagem.
Neste processo, na falta de ordenamento e gestão do rio e das margens, nem o Douro escapa. Há marinas e grandes barcos que aproveitam as vistas, tapando as dos outros: na Ribeira de Gaia, em Quebrantões, ou no terminal que era para ser do barco de ligação a Crestuma.
Agora, chega o impensável, bem ao estilo desmedido do século XIX: uma construção em cima do rio. É o que se propõe no Cais do Cavaco: um edifício "de apoio" a cais para navios-hotel, com 10m de altura e uma extensão de 180m, construído em estacas, sobre água, ao lado de uma marina que vai valorizar uns prédios mais que estão para chegar.
Se não havia respeito pela paisagem, agora nem sequer pelo Douro... Se isto for aprovado pela APDLVC, APA, CCDRN e CM Gaia, quem defenderá o interesse público?
*Geógrafo/Professor da Universidade do Porto

