Há pouco tempo, o "Público" lançou uma reportagem sobre escolas. Concluiu que variadíssimas listas de associações de estudantes convidam influencers para as suas campanhas que são praticamente actores porno. Alguns são-no de facto. Os que não são, mesmo esses, promovem uma cultura misógina e sexualizada, no mínimo ordinária e chã, que nunca deveria ter lugar nas escolas.
Impressionou-me muito uma das directoras que, questionada sobre ter autorizado a entrada de tais figuras, respondeu com um descaramento que me deitou abaixo: "Mas eu tenho sempre de fazer uma pesquisa sobre quem é a pessoa que vem à escola? Vem aqui um escritor e nós temos de estar a pesquisar?"
Ora, como escritor, costumo ser convidado para visitar várias escolas. Levo-lhes histórias, falamos de livros e de literatura, vou tirando o pulso àquilo de ser adolescente e viver a boa ânsia de esperar tanto futuro. Nos últimos tempos, fiz um certo périplo de norte a sul, e por isso sou testemunha. E quero testemunhar.
Perante este caso, o escândalo é fácil e justo. Mas convém lembrar que se trata da excepção. As escolas, as direcções, os professores não são um ajuntamento de incapazes que deixam os seus alunos à mercê de gente rasca.
Se é certo que também vejo algum atavismo e falta de empenho, tenho testemunhado, por outro lado, tanta entrega e generosidade, tanta genuína orientação estrutural dos alunos. Muito além de mínimos e normas, de forma criativa, abnegada e frequentemente com sacrifícios pessoais por parte dos professores e dos responsáveis.
Se pensamos em ser nobre, em aspirar a um ideal e proceder em correspondência, estes professores - estes alunos - são nobres. São-no todos os dias, são-no reiteradamente.
Ainda esta segunda-feira visitei a Escola Secundária Camilo Castelo Branco, em Famalicão, para o arranque da Semana da Leitura. Não há outra maneira de o dizer, nem outra estaria à altura do que os professores e os alunos ali fizeram: foi comovente.
Durante meses, leram com os alunos, fizeram dos livros sua propriedade, puro divertimento e pura aprendizagem. Transformaram-nos em vida quotidiana, extravasaram a biblioteca, tornaram os livros quadros, design gráfico, música - até plantaram árvores (uma de metal e plástico, outra de madeira e seiva). E a culminar, com todos os alunos envolvidos e, mais do que empenhados, entusiasmados e felizes - verdadeiramente jovens na juventude -, fizeram um espectáculo de malabarismo, música, trapézio e tanto mais.
Isto também existe - as escolas também são assim. Tão nobres, tão perto de um ideal, tão distantes de influencers, tão perto da vida. Só podemos agradecer-lhes e defendê-las.
*O autor escreve segundo a antiga ortografia

