Temos muitas razões para estarmos zangados. Zangados com António Costa por uma governação que se preocupou mais com o superavit do que em resolver os problemas reais das pessoas. Zangados com Marcelo Rebelo de Sousa que contribuiu mais do que seria sensato para que uma catadupa de eleições acelerasse o crescimento do populismo de extrema-direita. Zangados com a comunicação social que tem dado mais tempo de antena a Ventura do que a qualquer outra figura política nacional. Zangados com Luís Montenegro que tem assumido a agenda do Chega como sua, normalizando o seu discurso, dando corda às suas guerras culturais e ajudando a que o diapasão político nacional seja definido pela extrema-direita.
Que um autocrata, xenófobo, responsável por mais de 80% das fake news divulgadas nesta campanha eleitoral, tenha passado à segunda volta nas presidenciais, tem de deixar todos os democratas muito zangados. Temos de estar zangados com os cínicos que, para evitar as "linhas vermelhas", disseram que o poder iria moderar o seu discurso, que o Chega nunca iria passar de uma minoria de ressabiados, que as coisas que defende são mais para galvanizar do que para cumprir, subestimando o seu poder de apodrecimento das instituições e do debate público. Zangados com a demonização discursiva das melhores cinco décadas da nossa história, em que um país de analfabetos e de crianças descalças, forçadas a trabalhar desde a infância e com altos de índices de mortalidade infantil, isolado do mundo e sem qualquer tipo de liberdade de expressão e de imprensa, se transformou num país europeu desenvolvido, com democracia, infraestruturas, SNS e escola pública.
Temos de estar muito zangados, porque a ascensão meteórica de André Ventura é perigosa para os mais vulneráveis, legitimando a disseminação do seu discurso xenófobo nas ruas, nas escolas, no dia a dia. Temos de estar zangados por vermos o panorama político de tal forma inquinado pelo veneno da demagogia, do radicalismo e da mentira, que o voto passa a ser por oposição. Já que o perigo da vitória dos inimigos da constituição, obrigou a Esquerda a votar de forma tática na primeira volta, refém do voto sem convicção, dedicada aos paliativos da defesa formal da nossa democracia, mobilizada pelos mínimos.
Com uma segunda volta Seguro versus Ventura, temos de estar ainda mais zangados com os supostos democratas que preferem a cobardia da neutralidade, quando a defesa da democracia é a única opção. Zangados porque essa neutralidade faz equiparar ambos os candidatos, como se fosse indiferente votar num radical de extrema-direita que não esconde a sua ambição de mudar o regime para instaurar uma espécie de autocracia presidencial, ou num democrata (que por muito morno que seja, garante o respeito pela constituição). Está tudo em aberto e a História há de recordar os covardes que ficaram em cima do muro para deixar Ventura passar!

