Opinião

A realidade por detrás de Odemira

A realidade por detrás de Odemira

Em 2017, a reportagem sobre apanhadores de amêijoa no Tejo, também apanhadores de fruta na Costa Vicentina, veio alertar para o facto de, pelo menos desde 2014, Portugal ter redes de tráfico para exploração laboral e, desde 2007, para exploração sexual. Ainda assim continuamos hoje sem os meios necessários para prevenir e combater este flagelo.

Só no Alentejo, o SEF investigou e deu seguimento, desde 2005, a 82 casos de angariação de mão de obra ilegal, auxílio à imigração ilegal, escravatura, tráfico de pessoas para exploração laboral e tráfico de menores. Estas investigações estão em risco e estas vidas também, devido a decisões erradas do ministro da Administração Interna.

O flagelo do tráfico de seres humanos é complexo e precisamos de fortes campanhas de sensibilização, do reforço das equipas multidisciplinares, de mais meios de investigação e de instrução que garantam a celeridade processual, da investigação ao tribunal.

Odemira revelou-nos uma assombrosa questão humanitária, evidenciando mais uma vez a ligação entre a exploração humana e a exploração da natureza, entre a justiça social e a justiça ecológica. Através de práticas de agricultura intensiva e superintensiva desregradas, tem-se vindo a destruir, ao invés de proteger, o Parque Natural do Sudoeste Alentejano e da Costa Vicentina, eliminando com uma vasta área de estufas um coberto vegetal único e a biodiversidade, de que resulta a erosão do solo e a contaminação dos meios hídricos.

É tempo de exigir uma maior regulamentação da agricultura intensiva e superintensiva, assim como a avaliação dos impactes ambientais cumulativos destas práticas em toda a linha de produção. Do ministro do Ambiente, queremos ouvir falar sobre o plano de gestão territorial no âmbito da zona especial de conservação e como vai impor limites à agricultura intensiva e superintensiva, mas vai optando por nada dizer. Ambiente e agricultura podem e devem andar de mãos dadas, mas para isso o Governo tem de estar efetivamente comprometido com a transição ecológica, o que não se verifica, para grave prejuízo de todos nós e do país.

Deputada do PAN

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