O grande problema dos problemas urbanos é que são quase sempre (antes de tudo) problemas sociais.
Ou seja, não adianta mover as pessoas no território, sem resolver as causas para os flagelos que as marginalizam, porque estes seguem com elas para os novos territórios, acabando, mais cedo ou mais tarde, por ressurgir e em força.
Nas últimas décadas, no Porto, isso é evidente. Basta retornar à Ribeira dos anos 70, antes do grande processo de reabilitação urbana que o 25 de Abril possibilitou, para recordar o desolador levantamento do arquiteto Távora, que documentava a maior densidade populacional do país, uma insalubridade medieval, a maior taxa de tuberculose da Europa e a pobreza extrema que levou José Afonso a escrever "Menino do Bairro Negro", impactado com o que viu naquelas ruelas escuras. Desse processo de reabilitação (o CRUARB), feito por uma equipa multidisciplinar e bem intencionada, saiu o projeto do Bairro do Aleixo, para albergar cerca de 80% das pessoas que inevitavelmente teriam de sair da Ribeira. Foi a população local que definiu quem ficaria no bairro e quem iria para o Aleixo, situado a poucos quilómetros, também junto ao rio e onde seguiriam juntas as famílias que, numa lógica de solidariedade de vizinhança, sempre se tinham apoiado.
Mas como acontece sempre, não basta uma vivenda digna para que as pessoas consigam contrariar décadas de pobreza e estigmatização, gerações e gerações de analfabetismo, desemprego ou precariedade. E como era previsível, os problemas sociais continuaram a existir no novo bairro, que rapidamente ganhou um forte estigma por estar associado ao tráfico e consumo de drogas. O resto da história é conhecido, a degradação do edificado e do tecido social, aliada a um desinvestimento por parte das instituições públicas (do Estado ao Município), deixaram o Aleixo ao abandono. Tendo sido essa degradação o argumento perfeito para justificar o grande negócio imobiliário que levou à sua demolição para futura construção de um condomínio de luxo.
Acontece que os problemas de tráfico e consumo de drogas não implodiram com o Aleixo e a "mancha" espalhou-se pelos bairros contíguos, levando a que passassem a estar à vista de todos. E ao contrário do Aleixo, que estava escondido numa zona de pouca passagem, agora não é possível ignorar o problema. Entre o Fluvial e Serralves, nos arredores do Parque da Pasteleira, no meio da rua, a qualquer hora (numa zona onde o metro quadrado é muito caro), é patente a verdadeira crise humanitária que sempre existiu na cidade, mas que só agora parece incomodar verdadeiramente. Importante é, portanto, recordar que se os problemas urbanos são quase sempre sociais, a sua resolução também deverá sê-lo, sobretudo quando soluções securitárias ou policiais parecem querer ganhar força. Sob pena de esta história triste continuar a pairar, de bairro em bairro, algures pela cidade.
*Música

