Em março deste ano saíram algumas notícias (a partir de um press release da Associação Mutualista Montepio) anunciando que, depois de cerca de vinte e cinco anos de espera, a CMP tinha finalmente aprovado o projeto de construção de seis edifícios habitacionais com quase duzentos lugares de estacionamento, na antiga Quinta do Pinheiro no coração do Porto.
A quinta, que outrora foi sede da Escola Académica do Porto, era um oásis verde no miolo do quarteirão entre a Rua do Almada e a Rua Mártires da Liberdade, ou seja, na apertada trama urbana (mais do que consolidada) da baixa da cidade. Providencial, portanto, para o acolhimento de aves, para a qualidade do ar e para o desafogo paisagístico desta zona da cidade (mesmo que escondida nas entranhas do quarteirão).
Foi, portanto, com enorme estupefação que, há poucos dias, a vizinhança testemunhou o corte das dezenas de árvores centenárias da antiga quinta. Foi tudo terraplanado e transformado em chão e entulho. Dezenas de árvores enormes cortadas apenas para facilitar os trabalhos de construção, sem qualquer necessidade e com a aparente autorização da CMP.
Estou certa de que quando forem divulgadas as imagens 3D destes apartamentos, a mancha verde em redor será emulada digitalmente e que estes serão promovidos como tendo jardim, janelas para a vegetação e sob a velha designação de "Quinta do Pinheiro", evocando pela toponímia um passado idealizado e pastoral. Mas a verdade é que, em pleno 2022 (!), para concretizar um projeto de 1997, dizimam-se dezenas de árvores preciosas para "facilitar" os trabalhos, sem dar cavaco à cidade e sem que haja explicação pública para o sucedido.
Espanta-me que, num momento em que a sensibilidade para as questões ecológicas está na ponta da língua de autarcas e empresários, mesmo que por efeitos de autopromoção, marketing e "green washing", se destrua com esta naturalidade um património da cidade, com consequências diretas para o bem-estar coletivo. É que cortar árvores centenárias é como queimar uma biblioteca, é como fechar um museu para sempre. Com a agravante que impacta também no ar que respiramos, na sobrevivência de outras espécies e na paisagem que queremos desenhar para o futuro. Segundo as notícias, o Porto terá mais 117 apartamentos e 192 lugares de estacionamento a serem rentabilizados por privados. Resta perguntar: à custa de quê e porquê com esta brutalidade? Alguma palavra CMP?
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