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Opinião

Lágrimas de blocodilo

Lágrimas de blocodilo

Muita coisa me separa de Ferro Rodrigues. Para além das diferenças ideológicas, continuo a pensar que nenhum político apanhado a tentar interferir num processo judicial em curso deveria assumir o cargo que ele hoje assume.

Mas estas diferenças não me impedem de repudiar aquilo que um grupo de radicais inimigos da democracia lhe fizeram enquanto almoçava, num momento da sua vida privada. Insultar ou ameaçar durante uma visita oficial ou atividade política já é condenável, mas fazê-lo enquanto a pessoa está num momento da sua esfera privada é muito mais grave porque rouba à pessoa o direito a ser mais do que político. Reprimir esse direito é uma forma desumana e antidemocrática de condicionar a ação política.

Este caso fez-me lembrar outro já com nove anos. Passos Coelho saía de casa com a sua mulher e filha de cinco anos quando um grupo de pessoas que o esperava à porta de casa se aproximou deles para o insultar. Chamavam-lhe assassino por causa das portagens na Via do Infante (que estariam a causar acidentes mortais na EN125). A filha, assustada pelos insultos, começou a chorar. Tal como no caso de Ferro Rodrigues, a segurança pessoal evitou males maiores. Nessa altura, poucas vozes se levantaram à Esquerda para condenar o sucedido. Pelo contrário, no ano seguinte o BE publicitou um novo protesto à porta da casa de Passos Coelho. O responsável pela organização do protesto acabaria eleito deputado pelo BE. A intrusão violenta na esfera privada não só não foi condenada como foi institucionalizada, incentivada diretamente por um partido e o seu organizador promovido dentro desse partido. Nessa altura acharam que valia a pena insultar e intimidar um pai que levava a sua filha à praia por causa de uma portagem.

O organizador tornou-se deputado em 2015, aprovou vários orçamentos, mas a portagem continua a existir. Não se lhe conhecem protestos junto à casa de férias de Costa a chamar-lhe assassino por manter a portagem. Não sei o que esse deputado pensará sobre a situação de Ferro Rodrigues, mas como parece ter moderado outras opiniões, pode ser que agora esteja do lado certo. Resta saber se continuará aí quando o ciclo mudar. Ele e os outros todos.

*Economista e diretor-executivo do Instituto +Liberdade

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