Opinião

Não há alternativa

As questões centrais que impediram o entendimento das forças de Esquerda para assegurar a aprovação do Orçamento do Estado, a premência de políticas de recuperação socioeconómica de que o país precisa, o agravamento de dificuldades vindas da "crise energética" e de mudanças geopolíticas e geoestratégicas perante as quais a União Europeia não tem política consistente, conduzem-nos a uma evidência: só um Governo suportado por compromissos da Esquerda, que respeite as agendas de cada uma das suas forças e assuma uma base programática comum, estará em condições de responder aos desafios.

A experiência de governação dos últimos seis anos obriga a reflexões consistentes por parte de cada força envolvida. A ideia geral que a sustentou é válida e pode ter futuro. É possível passar-se da "geringonça" para uma máquina operacional e produtiva e surpreender aqueles que, sendo desde sempre inimigos dessa via, aproveitam agora uma crise política inventada para proclamarem que a solução política dos últimos seis anos foi um "parêntesis", um "equívoco", uma "anomalia".

No centro dos entendimentos e desentendimentos observados esteve, como sempre, o valor que se dá ao trabalho e ao emprego, à garantia de direitos fundamentais, à distribuição da riqueza, ao exercício da democracia em todos os espaços, designadamente dentro das empresas e serviços. Isto é válido para a Esquerda, mas também para a Direita. Imaginemos então, a partir da experiência vivida e dos desafios enunciados, o que esperar nestas áreas vitais, das políticas de um Governo liderado pelo "troica plus" Paulo Rangel, ou por Rui Rio em versão bloco central.

O que levou o presidente da República a promover uma crise política?

O Serviço Nacional de Saúde está no fio da navalha e ele tem simpatia pela "forte presença" do setor privado. A precariedade e os baixos salários estão a cristalizar-se e as respostas a dar, embora não tenham influência nas contas públicas, incomodam fortes detentores da riqueza e do poder económico com quem sempre esteve. A transferência dos mais de 3 mil milhões de euros que, em cada ano, a partir de 2012, passam do trabalho para o capital está longe de ser revertida e Marcelo quer que assim continue. A distribuição da riqueza é injusta e a pobreza estrutural persiste, mas a conceção de solidariedade de Marcelo não vai além da caridade.

Marcelo sabe que, perante a "crise energética", Portugal jamais poderá ficar a subsidiar o modelo de negócios de transportes que está instalado: tem mesmo de se apostar na ferrovia e em novas políticas de mobilidade. Sabe ainda que o aumento da inflação pode ser pretexto para inversão das políticas do Banco Central Europeu exigindo sacrifícios em que a Direita é "eficaz" e que não o perturbam.

Os partidos mais à Esquerda enfrentam tempos difíceis e seria uma perda a sua marginalização ou desistência. António Costa, por excesso de confiança, por desgaste da pandemia, ou por opção estratégica, só na 25.ª hora deu um pequeníssimo sinal de soluções possíveis, já depois do seu partido e do Governo estarem viciados no discurso da não compreensão da atitude dos outros e longe da assunção das suas responsabilidades.

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Analisem-se os erros e os acertos sem recriminações, sem arrogância ou gula. Ficará claro que a alternativa continua a ser à Esquerda, com compromissos mais claros.

Investigador e professor universitário

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