Opinião

O estado da Nação na rentrée

O estado da Nação na rentrée

Nesta primeira quinzena de agosto, como em regra acontece neste mês em tempos de normalidade, escasseiam as notícias. Poderá dizer-se que isso é bom, que estávamos mesmo a precisar que assim fosse.

Contudo, não acreditemos no milagre que há de emergir da mistura de sorte com otimismo e capacidade de passar por entre os perigos da chuva. Infelizmente pairam no ar problemas que nos trazem enormes desafios.

As alterações climáticas confirmam-se como questão primordial para toda a humanidade. Elas transportam um enorme potencial de conflitos e evidenciam a necessidade de mudanças nos comportamentos, nas formas de organização da economia e no funcionamento das sociedades. Todavia, esses objetivos não se atingirão com políticas que privilegiam o negócio, que endeusam o mercado e secundarizam a solidariedade entre povos e países.

Estamos desafiados a não ficarmos prisioneiros da pandemia, mas aquilo que se vai observando é uma menor certeza quanto à duração dos efeitos das vacinas e uma grande parte dos seres humanos sem poder aceder-lhes e sem condições de se proteger. Enquanto a vitalidade democrática das sociedades se esvai, as companhias farmacêuticas, as grandes tecnológicas e especuladores financeiros obtêm lucros escandalosos.

As políticas da União Europeia para resposta à crise continuarão insuficientes e pouco sólidas. A sua aplicação é instabilizada por tensões entre os que defendem a democracia e os que a negam (não se trata de "divergências existenciais"), e pela incapacidade de se estruturar um poder político partilhado que afirme, de forma coerente, as posições e interesses da "Europa" no quadro das grandes mudanças geopolíticas e geoestratégicas em curso a nível mundial.

No plano nacional, está em marcha a aplicação da "bazuca", apresentada como solução para os problemas que o país acumulou durante e antes da pandemia, e como oportunidade para um novo impulso de desenvolvimento. As opções que estão a ser assumidas respondem ao cerne dos problemas que marcam "o estado da Nação"? A notícia recente sobre o aumento do preço da construção em 6,5% não parece boa. E o volume de investimento neste setor pode não encontrar mão de obra disponível, não responder à tão necessária qualificação do emprego (primeira preocupação para evitar uma nova onda de emigração) e ser um tiro ao lado de um alvo a que o país precisa de apontar - a redução da dívida externa.

O relatório "Governar em Estado de Emergência", do Instituto para as Políticas Públicas e Sociais, divulgado o mês passado, identifica várias cicatrizes que é necessário tratar e evidencia capacidades que temos e podemos reforçar. Cruzando alguns dos seus conteúdos com outras reflexões críticas que têm surgido, direi que a revitalização da participação cívica e da democracia, a análise das causas (e efeitos) profundas das desigualdades e a necessidade de se valorizar o trabalho devem caber nas prioridades da campanha eleitoral autárquica.

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Os tempos próximos vão exigir reforço da atenção ao endividamento das empresas e das pessoas e aos processos de desemprego oportunista que alguns grandes grupos puseram em marcha. A economia não pode ser só negócio e não se consolida investimento com manobrismos antilaborais. E é preciso afirmar que a Escola e o SNS têm qualidade, mas estão carentes de reforço e valorização dos seus trabalhadores.

*Investigador e professor universitário

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