Opinião

Da defesa da identidade à xenofobia

Da defesa da identidade à xenofobia

A propósito dos imigrantes é relativamente frequente colocar-se a defesa da identidade das comunidades que os recebem como o limiar que marca os limites da sua integração.

Colocam-se então nomeadamente as questões levantadas pelas diferenças culturais, sociais e religiosas, delineando-se a partir daqui projetos de assimilação que esbarram, mais ou menos, conforme os referenciais em causa, com comportamentos de resistência dos grupos visados.

É verdade que estes processos de integração levantam dificuldades, desde logo dificuldades de compreensão recíproca em termos de linguagem e de costumes. Há inclusive valores em torno da cidadania como um valor político essencial das sociedades democráticas, o qual é inalienável. Mas é verdade também que a integração, convertida em assimilação, é olhada tantas vezes como devendo ser unilateralmente conduzida pela comunidade de acolhimento, a qual tende assim a impor a adaptação pura e simples como a atitude a assumir por quem chega.

Neste contexto, os imigrantes, se constituírem uma vantagem social e económica evidente pelo tipo, custo e quantidade de trabalho que executam, desde que não ponham em causa interesses instalados, serão bem recebidos, ou, talvez melhor, tolerados. Caso contrário, a bandeira da identidade pode ser rapidamente desfraldada. Uma identidade que, dentro da lógica da intolerância e da recusa da relação de alteridade como uma mais-valia, se torna ela mesma estática, ancilosada mais do que no presente, num passado idealmente sacralizado e, deste modo, imune perante os desafios de uma dinâmica construtiva que lhe estará a ser proporcionada e que, não sendo aceite, afinal a condena.

A identidade, de facto, até um certo ponto pode ser um fator propiciador de coesão e solidariedade. Contudo, se se tornar avessa à possibilidade de fomento do encontro de povos, culturas e, antes de tudo, de pessoas, instala-se paradoxalmente como propulsora de violência e de desencontros. De xenofobia.

*Coord. do Observatório da Solidão do Instituto Superior de Ciências Empresariais e do Turismo

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG