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Hoje é Dia Internacional do Enfermeiro

Hoje é Dia Internacional do Enfermeiro

Fora este um texto corporativista e de profunda protecção à classe de enfermagem e começaria por dizer que estamos a dias de ver 900 enfermeiros a perderem o emprego. Mas não é. Por isso, começo dizendo que estamos a dias de ver vários milhares de doentes por ano a ver o seu futuro adiado. É só um infeliz retrato do que está a acontecer por todo o país, reduzido à micro escala do Norte do país.

A situação é uma ode Shakesperiana adaptada aos tempos de hoje. O Centro Hospitalar quer, o enfermeiro sonha, mas a família do Hospital, lá no Terreiro do Paço, não permite que a paixão nasça. Nesta narrativa os amantes não morrem. Concluir-se-à com o enfermeiro que foge, os cuidados que definham e os doentes que perecem perante a incapacidade de os salvar.

Por esta altura, já terá compreendido o leitor que a minha preocupação extravasa as famílias dos profissionais de saúde, apesar da consternação em ver quem largou tudo a ser tratado como não valendo nada. Não falo da dignidade dos profissionais, falo no dever de auxilio que o país nos obriga, no direito à saúde que a Constituição prevê.

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Antes da pandemia já existia uma carência crónica de profissionais, que só foi atenuada pela contratação de novos profissionais aliada ao medo dos doentes de realizarem os procedimentos que necessitavam. Houve mais pessoal para tratar menos pessoas, apesar da afluência por COVID ter sido maior. Agora, caminhamos de regresso às unidades projectadas para trezentos mil utentes a servirem quinhentos mil. É um caso, dirão. Não. É o cartão de visita de um SNS parado no tempo, encalhado nas dificuldades que o fazem quebrantar enquanto o país faz de conta que não ouve o ranger da dor que só é apaziguado pelo crer que esmorece, com as vagas de desinvestimento que se abatem sobre ele.

O problema das unidades de saúde, é o preço do que falta e não do que têm. A falta de dinheiro não advém de pagar aos enfermeiros que se contrata, chega pelo que custam as exiguidades que temos. A doença não se controla por orçamento, nem os enfermos se curam por carências financeiras. Isto significa que os hospitais são obrigados a recorrer a horas extra para compensar o absentismo aliado às dotações insuficientes e, noutra medida, o Serviço Nacional de Saúde necessita de jorrar dinheiro em SIGICs e cheques cirúrgicos que poderia realizar entreportas tivesse capacidade de planeamento, previsão e gestão controlada.

O despedimento destes enfermeiros, que são necessários, resultará em agravamento das condições de saúde das populações e consequente diminuição de prevenção da doença, que é como quem diz, aumento da necessidade de cuidados e diminuição da qualidade de vida das pessoas. No ano de 2020 realizaram-se menos onze milhões e meio de consultas em centros de saúde, menos vinte e seis milhões de actos de diagnóstico, menos cento e vinte e seis mil cirurgias e menos quatrocentos mil rastreios oncológicos.

Hoje, que se assinala o Dia Internacional do Enfermeiro, alerto uma vez mais para a necessidade de reforçar o Sistema Nacional de Saúde, dotando-o de meios capazes para enfrentar a crise social que aí vem, porque, aquilo que mais pretendo, é ser eu a bater palmas a Portugal.

*Presidente da Secção Regional do Norte da Ordem dos Enfermeiros

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