Opinião

A realidade do Acordo Ortográfico dez anos depois

A realidade do Acordo Ortográfico dez anos depois

Fará sentido pôr em causa o Acordo Ortográfico (AO), dez anos depois de ele estar em vigor, de os alunos terem terminado dois ciclos de ensino e não conhecerem outra ortografia, de os livros serem publicados com a grafia atual e de aqueles que não quiseram aprender terem preferido reformar-se, porque aprender dá trabalho?

Até ao final do século XXI seremos 350 milhões de pessoas a falar português em quatro continentes. Tem algum sentido haver ainda a pretensão de acantonar a língua ao retângulo europeu, e em mais nenhum outro país?

Outra questão: a ortografia não é decretada? Então e o que aconteceu em 1911, com a primeira reforma que estabeleceu o que não havia até então de regras claras na ortografia do português? E em 1945 e, depois, em 1973, com a supressão do acento nas palavras terminadas em -mente? Não foram as academias portuguesa e brasileira chamadas a esse trabalho de grande complexidade, posteriormente postas em vigor por decreto?

E, em todas essas situações, não houve sempre setores arreigados à norma da sua escolaridade geracional?

E quando os nossos pais, ao contrário do que tinham aprendido na escola, passaram a ter de escrever, sem acento, "comboio", "corte", "sede", "enjoo" ou "voo"? E o que foi da confusão com as mais díspares regras do uso do hífen?

Que justificação lógica haverá para retroceder numa grafia utilizada pela generalidade da Comunicação Social, pelas grandes empresas, públicas e privadas, em todos os organismos do Estado, nas autarquias, no ensino, nos manuais escolares, nos livros publicados nos últimos dez anos?

É como é possível argumentar que só em Portugal vigora oficialmente as novas regras introduzidas pelo Acordo Ortográfico de 1990, quando o Brasil o tem integralmente aplicado desde 2009 e Cabo Verde desde o ano passado?

Desdramatizemos! O Acordo Ortográfico é uma realidade e nunca mais na vida conseguirei explicar a um aluno que deverá colocar um "p" na palavra "ótimo"! Acreditem! Já experimentei!

* Professora de Português e formadora em Língua Portuguesa