Opinião

Agora, só rindo

Agora, só rindo

Os angolanos estão a reinventar-se na forma como lidam com os seus problemas, a sua realidade. Por aqui, o melhor é usar mesmo a expressão maka.

Se todos os dias há makas, todos os dias há uma reação interessante, mas faz tudo parte de uma adaptação geral à maka maior que é o estado do país, em todos os planos.

Passou o tempo do "tá-se bem", próprio de um momento em que a sociedade se achava num quarto escuro, quase sem esperança. Foi a forma de passar pela guerra agarrando-se a uma certeza sobre a qual nem se pensava muito, o dia de amanhã era sempre incerto, quase não esperado, mas "tava-se bem".

Agora a arma é o humor, a indignação no silêncio político da gargalhada.

O novo comandante-geral da Polícia Nacional, mais conhecido por "Panda", de nome de registo Eduardo Mingas, homem apostado em reduzir os números catastróficos da sinistralidade rodoviária, deu por si envolvido num aparatoso acidente, na nova cidade do Kilamba, de que resultou a morte de duas pessoas. O comissário não foi detido, foi encaminhado para o Hospital Militar, saído do seu Mercedez Benz blindado. A primeira piada a surgir dizia que Panda se tinha dado conta de ter baixado em demasia o número de acidentes. Imediatamente surgiram muitas outras, e músicas também, em menos de 48 horas. Assim como o novo verbo "pandar".

O novo humor angolano embala uma nova forma de protesto, para manter a saúde mental "em dia".

O novo discurso político, apesar de não se ter alterado as cores da governação, acabou por infundir na sociedade uma nova esperança de mudança, mas também trouxe uma exigência popular maior.

O povo não crê que o comandante da Polícia vá ser julgado (e nem quer saber se tem ou não a responsabilidade pelo acidente) e tratou de resolver já a maka, num julgamento implacável com a sentença dita em anedotas e em canções. Tal como não aposta todas as fichas nas promessas políticas, preferindo, antes, protestar com piadas. Os jovem inventaram o "acaba de me matar", fotografando-se com o rosto coberto pelo objecto do seu desespero. Preciso de casa? Deixo-me fotografar deitado com um tijolo ou com um saco de cimento sobre o rosto.

Antes fora o lixo. Há malária? As cidades estão imundas? Simples, os jovens postaram fotografias nas redes sociais ao lado de amontoados de lixo. Cada um com o seu lixo, um luxo particular. Que ao menos se salve a capacidade de rir.

* DIRETOR DO JORNAL "O PAÍS", ANGOLA

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