Opinião

Humor reforça dignidade cultural

Humor reforça dignidade cultural

A dignidade cultural do Porto ganha novo alento. Há projetos que agregam municípios vizinhos (Gaia e Matosinhos), há planos para residências artísticas, há teatro, há arte pública...

Neste domínio, a novidade aconteceu.

O projeto do Roteiro de Humor do Museu Nacional da Imprensa/PortoCartoon cruzou-se com o programa de "arte pública" da Câmara Municipal do Porto.

Vale a pena contextualizar. Em 2008, o MNI lançou, em plena Avenida dos Aliados, um roteiro escultórico dedicado ao humor internacional. O PortoCartoon deixaria a efemeridade anual para se integrar na vida portuense. Tudo começa com uma peça desenhada por Siza Vieira para a zona fronteiriça aos Paços do Concelho. Foi aí que a proclamação do Porto como Capital Internacional do Cartoon se fez. Em dez línguas, com o francês a caber ao inesquecível Georges Wolinski. De então para cá, todos os anos há escultores convidados para recriarem, em escultura, o grande prémio. Objetivo: dar substância ao Porto-Capital do Cartoon. Não há outra cidade no Mundo com tal distinção.

Em 2010, um verdadeiro atentado cultural aconteceu: a escultura (PortoCartoon) de Zulmiro de Carvalho foi arrancada pela CMP do local onde havia sido implantada (na Ribeira, frente à Igreja de S. Francisco, por acordo com o MNI). Aos protestos, nada. Muda a gestão autárquica, reclama-se. O tempo passa e, quase nove anos depois, a escultura volta ao mesmo local. Aconteceu há dias. Como? Com cerimónia especial da CMP, integrada na "arte pública".

Ou seja, depois do atentado, restituiu-se a dignidade cultural à cidade. A escultura simboliza uma asa. Não uma asa qualquer. Baseada no tema do PortoCartoon de 2010, Aviões e Máquinas Voadoras, serve para assinalar o pioneirismo de Bartolomeu de Gusmão, com a sua "passarola" (1709). Tem um valor cívico e pedagógico.

Com esta asa dá-se um voo de convergência cultural. O roteiro do humor converge com a "arte pública". A "cidade da cultura-líquida" reforça a sua distinção secular.

Quanta inovação pode trazer a "convergência" institucional numa cidade?

* DIRETOR DO MUSEU NACIONAL DA IMPRENSA

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