Há alguns anos ouvi a uma mesa do café um destacado dirigente de uma instituição particular de solidariedade social (IPSS) dizer que "anda muita gente a governar-se à custa dos pobres". Será, porventura, exagerado dizer que é "muita gente", referindo-se aos dirigentes, mas é um facto que essas instituições, para além de garantirem o apoio social a muitas pessoas, garantem o salário e regalias a muitas outras.
Na verdade, a esmagadora maioria dos que dirigem as IPSS não só não recebem um cêntimo pela sua atividade, como ainda se deslocam com as viaturas próprias e têm ainda muitas outras despesas de que não são ressarcidos. Aliás, um dos segredos para o sucesso das IPSS é a quantidade de tarefas que são asseguradas por inúmeros voluntários, tanto ao nível da sua direção como do funcionamento de muitas das suas valências.
Por essa razão, as IPSS conseguem, salvo raríssimas exceções, ser muito mais eficientes e menos dispendiosas no apoio social aos mais carenciados do que o Estado. Este tem mais dificuldade em gerar esse voluntariado e todos os seus dirigentes estão habituados a ver ressarcidas todas as suas despesas e deslocações ao serviço das instituições.
Quando são noticiados casos de corrupção, de desvio de verbas, ou de gestão danosa nas IPSS, com leviandade rapidamente se põe em causa a sua existência e se exige que as funções que lhes estão confiadas regressem à esfera do Estado. Depressa se esquece a dedicação de tantos em acorrer às necessidades de muitos.
Para além do auxílio aos que tantas vezes são esquecidos pela sociedade, as IPSS têm, também, contribuído para a criação de postos de trabalho em muitas regiões do país que o Estado tem votado ao abandono. São das poucas instituições que, nos últimos anos, geraram emprego e fixaram pessoas em muitas das vilas e cidades do interior e as únicas a criá-lo nas aldeias mais remotas do nosso país.
Só por isso - e pela assistência que elas vão garantindo a tantas pessoas, sobretudo os idosos dos pontos mais recônditos do país -, já valeu a pena a sua criação e os apoios que o Estado lhes concedeu. Até porque a maior parte delas receberam apenas uma pequena parte das verbas geridas pelas grandes instituições.
*PADRE
