Opinião

Nunca é tarde

Celebram-se agora 44 anos de Abril. E foi a este propósito que o MNI montou uma exposição sinteticamente denominada "A capicua da alegria". A dimensão eufórica ficou incrustada na história. Jornais, revistas, cartazes, autocolantes e discos expressam-no bem. Guardam essa memória recente. Ela correspondeu a uma explosão da identidade do povo português que se encontrava enclausurada, oprimida, recalcada.

O golpe militar do MFA fê-la explodir como um vulcão que se derramou em alegria convulsa pelas ruas do país. Nalguns casos, ao ralenti. Mas foram rios de alegria.

Passou-se da ditadura para a democracia, ainda sem regras, através da euforia; A ditadura não foi julgada; A democracia, da alegria espalhada e sem regras, foi-se burilando.

As leis foram apertando as malhas da espontaneidade. O Estado de direito foi-se sobrepondo ao Estado revolucionário que tinha tido todo o direito de liquidar a ditadura; Liquidação meiga e benevolente. Hoje, a democracia está sempre a ser julgada. Faz parte da sua essência.

Há 44 anos, os dias de Abril foram de festa e euforia, afogando dramas, prisões, violências, assassínios, censuras e vinganças de décadas. A alegria fez submergir tudo; O cheiro dos cravos e o arco-íris do "somos livres, somos livres" suplantaram avaliações e julgamentos que a justiça deveria ter feito.

Era tempo de festa explosiva.

A euforia ofuscou uma reflexão aprofundada sobre atitudes e comportamentos de ocasião. Eduardo Lourenço, filósofo e ensaísta que em 1974 estava exilado em Paris, faria um retrato incisivo sobre esse tempo de embriaguez da revolução: "Num só dia, a bondade dos nossos costumes apagara os gritos estrangulados de meio século, os cadáveres escamoteados, as noites sem pálpebras" ...

Mais: "Era esquecer que a longa noite partilhada pelos carrascos e as vítimas havia tido tempo de converter uns e outros em fantasmas destinados a mudar de forma e consistência, por vezes a trocar de lugares quando chegasse a hora da libertação".

Com maior incisão, Eduardo Lourenço, diz: "Quando as vítimas se voltaram para ver melhor o rosto dos seus suaves algozes, não havia ninguém. (...) Os algozes descobriam-se delicados missionários da rotina. As vítimas não tinham público".

A oportunidade deste olhar aguçado e acusador situa bem esse tempo. O tempo da alegria da Revolução.

Alegria nua. Inócua. Amnésica.

Soberana ingenuidade? Ou traço de personalidade coletiva?

Mesmo neste tempo de "capicua da alegria", nunca é tarde para pensar bem.

Nunca é tarde para nos pensarmos.

DIRETOR DO MUSEU NACIONAL DE IMPRENSA

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