Opinião

O drama da bola de Berlim

O drama da bola de Berlim

A recente publicação de um despacho a limitar a comercialização de determinados produtos nas instituições do Serviço Nacional de Saúde gerou discussão apaixonada entre aqueles para quem é indispensável a sua bola de Berlim após a consulta no cardiologista e aqueles para quem um pão com queijo é tão odiável como a bomba atómica.

A OMS identificou, já há vários anos, a obesidade como um dos maiores problemas de saúde pública. Mais assustador que a incidência no adulto é o impacto nas crianças e adolescentes, onde se estima, num estudo publicado na "Lancet", em 2017, que o número de crianças e adolescentes obesos tenha passado de 11 milhões, em 1975, para 124 milhões, em 2016 - um aumento superior a dez vezes.

As principais consequências deste aumento vão ser sentidas nas populações e sistemas de saúde nos próximos 20 a 30 anos quando as implicações mais graves se fizerem sentir. Isto obriga a uma reflexão sobre o que fazer para evitarmos que este número continue a crescer.

A educação adquire um papel crucial, claro. Mas demora vários anos até ter um efeito palpável. Numa primeira fase, não é injustificado que se tomem medidas mais ou menos radicais para controlar uma epidemia incontrolável e acredito que terá sido neste contexto que o despacho da polémica tenha surgido.

O legislador cometeu foi um grande pecado na sua redação - optou por um estilo detalhado, chamando croquete, rissol e bola de Berlim àquilo que podia ter categorizado pela carga nutricional - e gerou assim reações tumultuosas. Podia ter seguido um caminho mais técnico e não tão objetivável? Podia, mas assim teríamos mais uma regulamentação que poucos conseguiriam entender, ainda menos poderiam aplicar e que ninguém poderia fiscalizar. É esse o tipo de legislação a que penosamente estamos habituados, para gáudio de muitos.

Saibam as ferozes vozes que se têm levantado, levantarem-se com a mesma pujança para apresentarem propostas efetivas de promoção de saúde e hábitos de vida saudáveis - e que no meio da ira tenham o prazer de descobrir que as melhores iguarias (de vez em quando) da nossa gastronomia têm um sabor muito melhor fora das nossas unidades de saúde.

*MÉDICO (MEMBRO DO CONS. REG. NORTE DA OM)

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