Opinião

Recordações do irmão do meio

Recordações do irmão do meio

Por causa da carreira profissional do meu pai, que era juiz, a nossa família andou sempre a saltitar de terra em terra e de casa em casa. Era assim a carreira dos juízes. Os meus pais mudaram de casa 16 vezes: a primeira vez, sozinhos; as outras, levando-nos a nós, os filhos, à medida que fomos nascendo. Isto era absolutamente normal nas nossas vidas. Tão normal que já nem me recordo bem dessas mudanças, apesar de ter estado em seis. Mudava toda a envolvente, mas nós éramos exatamente os mesmos. O essencial estava assegurado: sempre uns com os outros.

Ter família a sério, para mim, é isto: viver com a segurança inabalável de que aquelas pessoas estão, e estarão sempre, incondicionalmente connosco, ainda que tudo o resto mude e aconteça o que acontecer. Temos ali o nosso espaço de confiança, que se prolonga por sucessivas gerações.

É por isso que ter irmãos é muito bom: pela lei da vida, os pais acabam por nos deixar e vão ser os irmãos a dar continuidade àquele projeto familiar e a construir, connosco, o tal espaço de confiança incondicional. É o que mais registo ao olhar para amanhã, Dia dos Irmãos.

Éramos quatro irmãos, dois rapazes e duas raparigas. Eu era o terceiro: ocupava aquele lugar ingrato e indefinido de estar no meio dos outros. Tentei fazer uma revisão às memórias mais antigas e todas elas são com os meus irmãos. Recordo-me das viagens no carro, acamados os quatro no banco de trás, sempre aos empurrões e encontrões até algum de nós deixar de achar graça à brincadeira; dos jogos que invariavelmente - mesmo os mais tranquilos como o xadrez ou o "Monopoly" - acabavam em gritaria; dos segredos com a minha irmã mais nova ou das discussões à mesa pelos motivos mais bizarros e sem importância.

Partilhar a vida e uma casa com vários irmãos faz-nos muito bem. Havia um quarto para os rapazes, outro para as raparigas: dividir o espaço, por vezes apertado, obriga-nos a limar arestas, a contrariar as nossas manias ou caprichos. Com o meu irmão era tradicional a discussão sobre o momento de apagar a luz ou desligar o rádio. Na falta de melhor critério, acabava por imperar a lei do mais forte: eu tinha de ceder...

Comparando as minhas condições atuais de vida com aquelas que tive, não posso esquecer o mais prosaico: a partilha da casa de banho. De manhã, todos tínhamos que aprender a andar depressa, pois estava sempre alguém à espera para entrar, que por vezes batia à porta com insistência até sairmos. Uma correria! O pai, com paciência de santo, ficava sempre para o fim.

Uma parte razoável da nossa convivência era a diversão conflituosa, um misto de brincadeira, zangas e lutas constantes. Nunca nos demos mal, mas estávamos sempre a "peguilhar" uns com os outros. Fora de casa, nenhum era assim. A explicação julgo ser muito simples: entre nós, podíamos fazer qualquer disparate e abusar para além do razoável, pois sabíamos que, dali a pouco, lá estávamos impecáveis outra vez, os mesmos do costume. Deste ambiente mais "competitivo", estava sempre excluída a minha irmã Nuxa (já morreu há alguns anos), pois era a mais velha, o que lhe dava uma autoridade que ninguém ousava questionar. A diferença de idade era tal que ainda guardo recordações de ela me vestir.

Crescer entre irmãos é a melhor escola. Aprende-se um pouco de tudo o que precisamos para a vida: respeitar a hierarquia, perceber a diferença, perdoar, saber o momento em que é melhor falar ou passar discreto, partilhar o que temos, guardar confidências.

Porém, sinceramente, aquilo que guardo de mais marcante da relação que tenho com os meus irmãos é a tranquilidade que nasce da confiança mútua e total: aconteça o que acontecer, lá estaremos uns para os outros.

ADVOGADO, EX-DEPUTADO, MOVIMENTO DOURO LITORAL

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