O Jogo ao Vivo

Opinião

Milhares de milhões

Nos primeiros nove meses de 2020, o valor das apostas em jogo online em Portugal foi de quase quatro milhões de euros, um aumento de 63% em relação ao mesmo período de 2019. Estes dados demonstram um aumento significativo do jogo online durante a pandemia e reforçam a necessidade de um debate nacional acerca dos impactos do jogo na saúde pública.

Ao contrário do que sucedeu noutros países, Portugal optou por não implementar medidas de restrição da publicidade ao jogo e, em simultâneo, tem insistido no incentivo direto às apostas através da "Raspadinha do Património".

A questão tem dimensões económico-sociais, de saúde e éticas que têm sido sistematicamente desvalorizadas pela Santa Casa sob a capa do "divertimento saudável e seguro", da "inexpressividade dos casos" e da "devolução dos lucros à comunidade".

Os estudos internacionais indicam que 2% das pessoas podem vivenciar situações de risco relacionadas com o jogo, metade das quais terá jogo problemático ou patológico. Os dados não contrariam a ideia de que a maioria joga moderadamente (98% não têm problemas), mas também não indicam que a situação seja inexpressiva.

Sejamos claros: o João, a Maria, o António e muitos outros que têm as suas vidas financeira e emocionalmente destruídas pelo jogo não podem continuar a ser ignorados pelos seus concidadãos e pelos partidos políticos.

Avolumam-se as evidências de que precisamos de novas políticas na regulamentação do jogo em Portugal. Haverá, contudo, muitos milhares de milhões que nos continuam a afastar delas.

Psiquiatra e professor da Univ. do Minho

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