Opinião

Novo corona autoritarismo

Novo corona autoritarismo

O ambiente vivido em várias cidades europeias não propicia um debate limpo de extremismos. Essa tem sido uma realidade bem visível nos últimos meses, fruto do desgaste das populações causado pelas múltiplas medidas restritivas tomadas no contexto da pandemia de covid-19.

Vejamos, em primeiro lugar, o que se tem passado no terreno em termos de manifestações de descontentamento.

Do ponto de vista interno, de cada país, os "lockdowns" são encarados por muitos como ameaças aos direitos dos cidadãos e, muito particularmente, daqueles que trabalham. Os donos dos restaurantes, um dos setores mais penalizados pelos confinamentos, protestaram com muito ruído em Portugal, tendo-se registado vários confrontos com a Polícia. Em Paris, milhares de pessoas manifestaram-se contra uma proposta de lei de segurança global que impede qualquer filmagem das forças policiais em ação. Madrid, Barcelona e muitas outras cidades foram palco de violentos protestos contra as restrições impostas para conter a pandemia.

Em "As origens do totalitarismo", Hannah Arendt refere o isolamento como sendo uma das condições ideais para o surgimento de estados autocráticos. Poderá parecer exagerado falar do assunto no contexto das democracias da União Europeia, mas as experiências temporárias dos estados de emergência, ou outros estatutos jurídicos de exceção dentro de cada país, fazem com que alguns se sintam menos livres, mais isolados e muito ignorados nos seus direitos. Neste contexto, alguns líderes políticos agarram mais o efémero do que a essência estrutural dos problemas. Em vez de desvalorizarem o que é conjuntural, abraçam a crítica menos objetiva. É preciso mais bom senso. Medidas temporárias não significam restrições eternas. O novo corona autoritarismo é mais um fantasma do que uma realidade, pelo menos nas democracias ocidentais.

*Editor-executivo-adjunto

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