Como tónica comum desta série de artigos, a ausência de um diagnóstico conclusivo pode revelar-se numa verdadeira angústia, não só para o paciente, como também para a sua família. "Penso em todas as horas que passamos nas salas de espera do hospital, a ser encaminhados para diferentes especialidades e todos os exames que fizemos - alguns dos quais bastante invasivos - que davam sempre um resultado inconclusivo. Perdi a conta a quantos médicos consultamos e quantos exames fizemos".
Infelizmente, a Medicina convencional ainda não consegue dar resposta a todos os casos, em especial quando se trata de doenças complexas e heterogéneas. Como tal, acumulam-se em lista de espera o número de casos por diagnosticar, o número de pacientes sem uma patologia definida, os chamados "não diagnosticados" - uma condição que pode ser tão limitadora quanto desesperante. Na sua maioria, trata-se de doenças raras, cujo diagnóstico é geralmente moroso e difícil.
Contudo, esta terça-feira, Dia Mundial das Doenças Raras, gostaria de encerrar este ciclo com uma palavra de esperança. Felizmente, os avanços tecnológicos ao nível do diagnóstico, baseados na análise de DNA, muito embora não encerrem em si todas as respostas, contribuem muito significativamente para um aumento na capacidade de diagnóstico. Com o objetivo de colocar em campo estas tecnologias, e testar a sua capacidade de diagnóstico, surgiu o projeto de investigação clínica In2Genome, liderado por uma start-up nacional, a CBR Genomics, em uma parceria com a Unidade de Genética Médica do Hospital Pediátrico de Coimbra e o Biocant.
Neste projeto, que foi o primeiro em Portugal exclusivamente focado em testar as tecnologias de sequenciação de DNA na resolução de casos "não-diagnosticados e clinicamente não-urgentes", foram estudados 62 pacientes com idades entre os 3 meses e os 20 anos. Estendeu-se, ainda, a análise dos seus progenitores, perfazendo um total de 150 pessoas cujo DNA foi estudado.
Numa primeira fase, foram sequenciados todos os genes do Genoma Humano (cerca de 20 mil) e, em seguida, analisados os genes que estavam, de alguma forma, relacionados com os sintomas que estes pacientes apresentavam. Após uma análise exaustiva dos dados de DNA recolhidos, foi possível atribuir um diagnóstico conclusivo a 28 pacientes. Sendo certo que não foram todos (é evidente a importância da gestão das expectativas quando se iniciam estes estudos), é também certo que um único projeto de investigação em contexto clínico permitiu retirar da angústia do "inconclusivo" 28 famílias. Muito mais do que 28 pacientes, falamos de todos os seus familiares, sobretudo pais e irmãos, mas também tios e primos são diretamente impactados quando se consegue, finalmente, identificar a origem na molécula de DNA da doença.
Um dos casos que analisamos foi o de um rapaz de 20 anos, com Défice Intelectual profundo, e cuja família se encontrava na terrível jornada do diagnóstico há mais de 17 anos, tendo inclusivamente participado em estudos clínicos anteriores. Um caso de resiliência familiar e clínica, que bem demonstra a incessante procura do diagnóstico de todos os envolvidos. Com o In2Genome veio, finalmente, uma resposta através da identificação de uma nova mutação do DNA até então desconhecida (e, por isso, a dificuldade de diagnóstico). E o impacto foi, efetivamente, enorme: com a identificação precisa da mutação do DNA, foi possível tranquilizar a sua irmã saudável, pois foi possível inequivocamente dizer que o risco de vir a ter filhos com o mesmo problema do irmão era igual ao da população geral. E foi possível acelerar o diagnóstico do irmão mais novo, na altura com cerca de 4 anos, que já apresentava alguns sintomas semelhantes. Assim que o diagnóstico foi atribuído, a família e a equipa clínica que os acompanhava começaram a investir em terapias complementares como fisioterapia, terapia da fala e hidroterapia, de modo a mitigar o impacto dos sintomas graves, bem como a estimular o desenvolvimento da criança, com um impacto positivo no seu estilo de vida.
Este é apenas um exemplo, mais um, que se junta ao do André Correia, no seu último artigo. Efetivamente, e felizmente, estas novas tecnologias de DNA, que permitem o estudo de todos os genes, são hoje uma realidade. Já provaram a sua importância e impacto na resolução de casos complexos. O extraordinário é que o princípio é sempre o mesmo: a técnica é a mesma, o processo é similar. Efetivamente, uma única forma de análise permite identificar centenas de doenças raras.
Aliás, exatamente por este motivo, as indicações das sociedades internacionais mais relevantes na área da Genética e da Genómica indicam que deve ser esta a primeira linha na procura do diagnóstico. Urge agora disponibilizá-las à população. Democratizar o seu acesso. Para o bem dos pacientes e das suas famílias. Porque as doenças podem ser raras, mas o diagnóstico não tem de o ser.
*CEO da CBR Genomics
