Opinião

Olhar com realismo a crise energética

Olhar com realismo a crise energética

A crise energética provocada pela guerra na Ucrânia e a seca generalizada decorrente da emergência climática tornaram evidentes a incoerência, o desnorte e a falta de visão das políticas para a energia e o ambiente dos países europeus, nomeadamente de Portugal.

Parece hoje claro que as metas europeias para a transição energética e climática são impossíveis de alcançar nos timings propostos. O voluntarismo e as boas intenções políticas não chegam para compensar a escassez de infraestruturas, tecnologia e inovação necessárias para que a descarbonização seja sólida e consequente. Ademais, não foram ainda tomadas medidas de fundo que minimizem o impacto da transição energética e climática nas condições de vida dos europeus.

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O que falta em realismo sobra em falácias e incongruências. Veja-se, por exemplo, a questão da mobilidade elétrica em Portugal. Há fortes incentivos à substituição de veículos a combustão por veículos elétricos sem estar, porém, garantida a necessária disponibilidade de energia limpa.

Para que essa substituição ocorra em larga escala, vai muito provavelmente ser preciso importar energia para consumo dos veículos elétricos. Energia, essa, que não sabemos se será produzida em centrais a carvão, agravando as emissões de CO2, ou até mesmo em centrais nucleares, tratando-se da França. Ou seja, pode não ser energia limpa ou provir das tão execradas, entre nós, centrais nucleares.

Convém, pois, ter os pés assentes na terra, para que não haja retrocessos no combate às alterações climáticas. Temos de ser pragmáticos, estabelecer metas exequíveis e considerar todas as alternativas. Além do reforço do investimento em energias renováveis e na eficiência energética, parece-me pertinente olhar para a energia nuclear sem preconceitos. Não sou especialista na matéria, mas sei que em assuntos desta complexidade deve ser a ciência a enformar as decisões políticas, e não ideias preconcebidas ou enviesadas ideologicamente.

Sem realismo político, a crise energética pode vir a acelerar as alterações climáticas, com a reabertura em força das centrais a carvão.

*Reitor da Universidade do Porto

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