Opinião

Repensar a política de saúde (com urgência)

Repensar a política de saúde (com urgência)

No momento que atravessamos, impõe-se esta chamada de atenção para uma nova reflexão sobre a política nacional de saúde. Já em 1942, na Conferência Internacional da Saúde, em Nova Iorque, que daria origem, dois anos depois, à Organização Mundial de Saúde (OMS), se deixou bem claro que a saúde não é algo da exclusiva responsabilidade do setor médico, mas estende-se aos comportamentos e aos estilos de vida. Bem recentemente, a OMS reforçou esta sua posição, com a criação de um Technical Advisory Group on Behavioural Insights and Sciences for Health, reunindo especialistas diversos.

Há, de facto, muitos aspetos de saúde que, graças a uma articulação das entidades políticas com as próprias pessoas, pode levá-las a melhorar certos comportamentos e a prevenir muitas situações de doença. Um breve exemplo: em 2020, em Portugal, foram detetados cerca de 7000 novos casos de cancro da mama e morreram 1800 mulheres com esta doença. Se conseguíssemos aumentar a percentagem de mulheres que recorre ao rastreio regular, iríamos reduzir aquele número assustador. Isso pode fazer-se com medidas tão simples como permitir a todas a mulheres trabalhadoras que usem meio-dia de trabalho por ano para se deslocarem a um centro de rastreio. Imaginem-se as vantagens humanas, incluindo económicas, duma boa intervenção deste tipo.

Em suma, precisamos de ações eficazes que possam melhorar os comportamentos de saúde. Para tal, os governos e as políticas de saúde necessitam de criar uma capacidade nesta área, com unidades centrais de coordenação, com especialistas de disciplinas relacionadas, como a economia comportamental, o marketing social, a psicologia social e outras. Como diretor da International Social Marketing Association, reuni, no passado ano, com uma equipa do Gabinete da então ministra da Saúde e tive a oportunidade de apresentar um plano para esta área, que envolvia formação, coordenação e intervenção. Não houve, contudo, qualquer sequência. Impõe-se, agora, que, nesta próxima legislatura e governação, os partidos e principais dirigentes políticos apreciem esta questão e que se crie um diálogo nacional neste espírito, o de melhor intervir na melhoria dos comportamentos de saúde.

*Professor universitário aposentado e diretor da International Social Marketing Association

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