Só recentemente se soube da troca de opiniões no Banco de Portugal entre João Talone e Elisa Ferreira. A uma pergunta da vice-governadora se era adepto de picar a bolha especulativa, João Talone respondeu com um irónico "... às vezes, basta encostar a agulha!". A supervisão bancária portuguesa foi exercida entre a inoperância e a civilidade britânica do alerta sem pânico no segredo das reuniões também sem ata.
Daqui o desleixo no decorrer dos primeiros quase 20 anos do século XXI. Não houve nem há justificação pela falta de meios, dados os recursos disponíveis para os obter. Por outro lado, também não será argumento a carência de legislação e regulação disponível e potencialmente aplicável. Porquê? Porque aqui se aplica a observação de Talone: a qualquer supervisor de mercado, que tenha competência e prestígio suficientes para o exercício das suas funções, bastará, em muitas vezes, saber encostar a agulha. Aqui entronca a questão subtilmente repudiada pela supervisão bancária tradicional e ainda hoje prevalecente: "Nós não somos nem queremos ser polícias do sistema".
Pois é. Saber, por dever de ofício, encostar a agulha (mesmo quando, por vezes, exagera no "picar das bolhas") é de facto o trabalho por excelência da Polícia. E quando é que a Polícia existe ou se torna imprescindível? Quando existe crime, com propensão à reincidência e para o qual existe risco coletivo que deve ser eliminado. Mas, para que isso se cumpra e a tal alternativa do "encostar a agulha" tenha eficácia, é preciso que as autoridades tenham prestígio, credibilidade e poder suficientes para que se fique na dúvida em que momento a agulha picará mesmo.
Não tenhamos qualquer dúvida ou hesitação. A Banca é exercida por gente genericamente de bem e ciente das suas responsabilidades. O problema é o fratricida efeito mimético, que o próprio sistema consegue gerar por efeito da exacerbada concorrência na angariação de acionistas satisfeitos. O problema da ética e da governance na Banca não está a jusante nos mercados mas sim no relacionamento entre as empresas, os seus gestores e acionistas. Estaremos, assim, a referirmo-nos ao omnipresente acrescento de valor para o acionista, com todas as suas consequências, a começar no vírus do curtotermismo gestionário. Abordar a supervisão bancária numa perspetiva assumidamente policial não é ter uma visão retrógrada da realidade. É ter a coragem de a enfrentar com coragem e usando os recursos necessários para a defesa do bem comum. Encostar a agulha... obrigado João Talone. Finalmente, alguém fala corajosamente!
Economista
