Mensagem de Natal no JN

Um Natal de preocupação e sobretudo esperança

Um Natal de preocupação e sobretudo esperança

É quase uma inevitabilidade - assinalar o Natal com umas linhas no Jornal de Notícias. Este ano, um Natal dividido entre a preocupação e sobretudo a esperança. A preocupação, antes do mais.

Continuam ou multiplicam-se, no Mundo, sinais que não são boa notícia nem para a paz, nem para o diálogo, nem para a convivência entre pessoas, povos, culturas e civilizações.

Sinais como a permanência de desigualdades, de miséria, de guerra, de instabilidade política, social e económica, a provocarem mais migrações e mais refugiados. Com velhos e novos focos em África, na Ásia, na América Latina.

Sinais como a insensibilidade de alguns, com muito peso internacional, perante os desafios das alterações climáticas.

Sinais como a tensão ainda não superada entre potências relativamente ao comércio universal, bem como a tendência para o unilateralismo, que dificulta o papel das organizações internacionais e a afirmação do próprio Direito Internacional.

Entretanto, a Europa inicia um novo ciclo político com alguns outros sinais que continuam a provocar apreensão.

Sinais como a situação mais ou menos crítica de certos sistemas políticos nacionais.

Sinais como o apagamento de lideranças convictas, claras e determinadas e a emergência de compassos de espera ou fragmentações internas as mais variadas.

Sinais como o adiamento de decisões importantes para os anos mais próximos em áreas essenciais, até pela influência em termos de crescimento e emprego sustentados e significativos.

Preocupante, também, embora num plano diferente, no que toca a Portugal, quanto à concentração do debate público em pontos específicos, mais formais do que substanciais, mais conjunturais do que estruturais, à sensação difusa de que o dia a dia deve prevalecer sobre os horizontes de médio e longo prazo na perceção social de muitos, à situação crítica da comunicação social, acicate de instabilidade, de preferência pelo imediatismo, de potenciação do efémero em detrimento do fundamental.

Tudo isto é preocupante. Por isso, falei num Natal de preocupação.

Mas acrescentei que de um Natal sobretudo de esperança se tratava. Isto é, a esperança existe e permite mobilizar, mesmo quando a preocupação se manifesta.

Esperança no Mundo. Porque continua a luta de um sem-número de organizações e de cidadãos pelos valores primeiros do personalismo e do humanismo, a começar pela dignidade da pessoa humana.

Porque prossegue a saga dos que batalham pela paz, pela justiça, pelos direitos humanos, pelo Direito Internacional, pelo diálogo, a convergência, o entendimento.

Porque não pára a faina dos que pensam nas gerações futuras e não desistem perante a negação da evidência ou a frouxidão perante as alterações climáticas.

Porque as próprias potências em guerra comercial ou de divisas admitem, ao menos por um momento, que tréguas se impõem.

Esperança na Europa. Porque a saída do Reino Unido se fará com acordo e não como tantos defendiam sem ele.

Porque, nas eleições europeias e em muitos sistemas políticos europeus se viu que ainda há espaço para reformar, mudar de vida, acelerar o passo, retirar argumentos aos antieuropeus ou assistémicos.

Porque movimentos de ideias e sociais surgem ou se reforçam, pressionando outra iniciativa, outro ritmo, e, mais relevante do que isso, mais prioridade às pessoas, à sua participação, ao seu envolvimento numa Europa que se deixe de meras abstrações ou de torres de marfim.

Esperança em Portugal. Porque, entre nós, o bom senso, a experiência de muito passado e do que nele se viveu e o apelo de mais e melhor apontam para olhar mais alto e mais longe e cuidar de evitar injustiças, desigualdades, omissões, atrasos e displicências que criem o caldo para o enfraquecimento de pilares basilares de uma Democracia viva e de futuro.

Em suma, um Natal com razões para se estar atento, muito atento e disponível para agir, mas, por igual, com razões para se ter esperança, esperança na consciência da estabilidade institucional e financeira, da necessidade do crescimento e do emprego, da urgência da coesão social, da abertura para a renovação do que está cansado, esgotado, ultrapassado em estruturas, orgânicas, procedimentos, desempenhos pessoais.

E, porque a esperança é mais forte do que a preocupação - como é, aliás, próprio do Natal -, o que desejo a todos e a cada um dos que me vão ler, como, em geral, a cada um dos que tento servir todos os dias - e esses são mais, muitos mais - é um Natal Feliz, se possível vivido rodeados pelos seus entes mais queridos, e tendo sempre presentes os que o espaço físico, a doença ou a exigência pessoal ou profissional impedem de partilharem esse Natal familiar.

Que o seu Natal seja um Natal de esperança. É pela esperança que vamos, que temos de ir neste final de 2019!

*Presidente da República

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