Opinião

Uma garagem da cidade

Este verão, voltei ao Porto, cidade que conheço bem por razões profissionais e onde me sinto especialmente confortável, não só pelas afinidades com a minha Barcelona como pela forma de estar discreta e elegante dos seus cidadãos. Encontrei a cidade de sempre, aquela que preserva a sua identidade, mas percebi mudanças prenunciadoras de novos tempos. A cultura nas suas mais diversas manifestações atravessa o seu tecido social e será essencial na fase de recuperação em curso.

Pela mão do meu velho amigo Artur Santos Silva, portuense de gema e referência incontornável, mergulhei nalguns dos grandes equipamentos culturais da Cidade, entendi o prestígio que conquistaram os novos protagonistas das melhores propostas gastronómicas do país e conheci uma parte do Porto escondido, aquele que precisa de códigos ancestrais para o seu acesso. Ter um bom anfitrião é sempre um privilégio.

Emocionei-me especialmente na Casa da Música, talvez pela minha condição de Presidente do Gran Teatre del Liceu de Barcelona. Esmagado pela obra de Rem Koolhaas, imaginei que chegará o dia em que a nossa Orquestra Sinfónica oferecerá um concerto especial neste singular templo da cultura para reforçar as tradicionais relações entre Porto e Barcelona.

Na visita a este oásis de paz e felicidade que conforma a Fundação Serralves, percebi a vantagem de concentrar num mesmo espaço urbano o grande Museu de Álvaro Siza, com os 18 hectares de jardins desenhados e tratados como parte essencial do circuito que culmina com o local dedicado ao cineasta Manuel de Oliveira, outro portuense universal como o arquiteto. Haverá que regressar ao Porto quando a Casa de Serralves que Álvaro Siza acaba de reformar, mostre com carácter permanente a coleção das 85 obras de Joan Miró recuperadas pelo Estado português e confiadas a esta poderosa instituição, exemplo admirável de cooperação público-privada.

Naturalmente, cumpri com a liturgia que observa todo o visitante do Porto e consegui aceder à Livraria Lello, um prodígio misterioso que não tem paralelismo nem fácil explicação. Pagar para entrar numa livraria e respeitar longas filas que podem exigir esperas de várias horas é um fenómeno que altera conceitos e alimenta esperanças. Talvez por isso, o grande poeta catalão Joan Margarit tenha sentenciado que "A LIBERDADE É UMA LIVRARIA". No interior da Lello compreende-se bem a proclamação do autor de Misteriosamente Feliz, uma das suas obras traduzidas para português.

E com as fotografias das esculturas de Giacometti, na Santa Casa de Misericórdia do Porto, entendi o que levou alguns mandatários europeus a abandonar a recente cimeira no Palácio de Cristal para visitar o Museu da renovada Rua das Flores e tomar um cálice de Porto no seu deslumbrante último andar.

Contudo, para admirar o Porto, optei pela vista deslumbrante que se nos oferece dos terraços do novo World of the Wine, a última e arrojada proposta cultural de Adrian Bridge, esse gentleman inglês, que tão integrado está no cosmopolitismo do Porto e a quem devemos também a recuperação da alma do Hotel Infante Sagres.

PUB

O Porto voltou a surpreender-me. Fiel ao seu estilo e pronto para aproveitar os novos tempos que se aproximam. Nesta viagem, descobri também a facilidade com que a sociedade civil coopera nas iniciativas culturais que resgatam da memória coletiva figuras e factos que formam parte da história e do património de uma grande Cidade.

Bem a propósito da recente homenagem ao distinto arquiteto Rogério de Azevedo, autor da Garagem Comércio do Porto, bem como do edifício adjacente, que foi a sede do jornal considerado por alguns jornalistas como o defensor das causas do Norte. Aquele edifício e tantas outras obras fizeram de Rogério de Azevedo um vulto da arquitetura portuguesa e, de acordo com os especialistas, um pioneiro do modernismo no Porto.

O reconhecimento mereceu um vasto leque de contributos que, no sentimento do Presidente da Câmara Municipal do Porto mostram bem o que é o Porto; isto é, a convergência entre empresas, mesmo que estrangeiras, e as instituições. Desde a Fundação Marques da Silva à Associação Comercial do Porto, passando pela Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto, o Automóvel Clube de Portugal e o Museu da Cidade, tudo parecia sintonizado para respeitar a memória com o olhar virado para o futuro.

A crónica histórica do professor Hélder Pacheco, a lição sentimental do arquiteto Alexandre Alves Costa, pai da Ana Alves Costa, autora do livro sobre a obra de Azevedo, paralisaram a mítica Garagem que, por um dia, se transformou na 18ª estação do Museu da Cidade.

"Vamos à Garagem" ouviu-se de novo, desta vez para render tributo ao arquiteto da rampa helicoidal e não como lugar de tertúlias ou até refúgio de manifestantes, como em outros tempos era frequente na memória emocionada da família Seara Cardoso, os descendentes do professor Bento Carqueja, o promotor da Garagem, mas sobretudo o impulsionador do jornal O Comércio do Porto, cuja desaparição tantos lamentam.

Foi neste contexto, e na qualidade de presidente da SABA, uma companhia que gere vários estacionamentos na cidade Invicta, nenhum tão especial como a Garagem, que recordei o impacto que provocou o Porto dos anos de 1960 no escritor catalão, Josep Pla. Impressionado com a concentração automobilística na Cidade, onde estacionar um carro se lhe afigurava proeza tão difícil como em Roma ou Paris, estabeleceu a relação entre os carros e o comércio no Porto com esta impressão: "La sensació de moviment i de llibertat que produeix el cotxe sembla el complement normal del sedentarisme del comerç". Carlos Magno sugeriu que a frase de Pla figurasse no frontispício da Garagem.

Para nós, a Garagem pertence à Cidade, é uma das suas senhas de identidade que merece respeito e cuidado. Este Monumento de Interesse Público, assim declarado há 10 anos, é um bom exemplo de como Resistir ao Tempo, para invocar o título da novíssima antologia de poesia catalã traduzida para português que descobri nas livrarias do Porto.

*Presidente da SABA e do Gran Teatre del Liceu de Barcelona

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG