Opinião

UNESCO não "rima" com tourada

UNESCO não "rima" com tourada

A candidatura da Tauromaquia a Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO (um processo já formalizado por Espanha e acalentado em Portugal, com dinheiros públicos usados em estudos técnicos para o mesmo fim) está claramente condenada ao fracasso

No caso da candidatura de Espanha, liderada pela "Asociación Intergubernamental de la Tauromaquia", e embora as touradas já estejam inscritas na lista nacional do Património Imaterial, tem pela frente fortes barreiras na UNESCO. Isto porque, havendo um órgão das Nações Unidas, no caso o Comité dos Direitos da Criança, comprometido com a proteção dos mais jovens face à violência das touradas, seria incompreensível um outro órgão das Nações Unidas (a UNESCO), elevá-las a Património da Humanidade. Já não falando na Declaração da Cultura de Paz, cujo movimento a UNESCO criou em 1999, baseado no respeito à vida e na promoção da não-violência por meio da educação.

No caso português, a possível candidatura, antes de ir à UNESCO e aí defrontar-se com as mesmas barreiras, ainda terá de ser inscrita no inventário nacional do Património Imaterial, sob a alçada do Ministério da Cultura, o que não é fácil, tratando-se, como é sabido, de uma matéria tão fraturante na sociedade portuguesa. Ou seja, como poderia um património ser classificado como nacional e cultural, com as benesses correspondentes, se, cada vez mais, uma parte significativa do país o abomina?

Querer atribuir o estatuto de "ato cultural" a espetáculos com tortura de sangue em animais para aplauso e diversão do público é hoje inconcebível. A geração que aí vem (a dos que hoje são meninos e que nas escolas ganham laços de ternura com os animais e uma nova consciência dos seus direitos) irá, certamente, sentir náuseas ao recordar estes pretensos "atos culturais".

*Escritor e jornalista

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