Vacinação no doente oncológico: uma estratégia integrante no ato de cuidar
Prevenir é sempre melhor que remediar... esta crença popular reveste-se de particular relevância quando falamos de saúde e é um bom ponto de partida quando queremos reforçar a importância de utilizar medidas de prevenção na nossa população.
Dentro dos métodos de prevenção a vacinação é um método seguro, com elevados ganhos em saúde, e é considerado como uma das descobertas médicas mais importantes de sempre, tendo salvo milhões de vidas em todo o mundo.
Quando falamos de vacinação e cancro, dois aspetos têm de ser considerados: a) a vacinação enquanto método para prevenir cancro; b) a vacinação como forma de proteger doentes com cancro de doenças infeciosas que podem em última instância ser fatais.
O Programa Nacional de Vacinação (PNV) é um programa desenvolvido pela Direção Geral de Saúde (DGS) que faz as recomendações Nacionais sobre vacinação para a população em geral e para grupos de risco. O PNV toma em consideração as particularidades da vacinação, as doenças existentes no país e as doenças que universalmente devem ser preveníveis pela sua história passada ou gravidade. Este programa, tipicamente gratuito, é fundamental para o bem-estar da população, apresentando uma importância fundamental para a saúde pública.
Várias vacinas estão incluídas no PNV, sendo que duas tem um papel fundamental na prevenção de cancro: a vacina contra o vírus do papiloma humano, um agente infecioso causador de cancro do colo do útero e de outros cancros como da vulva, do pénis, do ânus e cavidade oral e a vacina contra o vírus da hepatite B, responsável pelo cancro do fígado (carcinoma hepático).
O segundo aspecto que devemos dar destaque na abordagem vacinação e cancro, é o uso desta medida para proteção do doente oncológico de infeções. Um doente com cancro está numa situação de fragilidade em termos da sua saúde, causada não só pela doença que o atingiu, mas também pelo tipo de tratamentos que vai ser submetido, que sendo fundamentais para a cura, apresentam vários efeitos adversos, incluindo alteração do seu sistema imunitário, ou seja, das suas defesas. Estes doentes fazem frequentemente medicamentos designados de imunossupressores, ficando assim mais suscetíveis a diferentes infeções, que podem não só ser causadoras de sequelas importantes, que levam a alteração ou adiamento dos tratamentos a que os doentes estão a ser submetidos (fundamentais para a cura) ou podem mesmo serem fatais.
A evicção de doenças infeciosas nos doentes oncológicos tem assim um papel fundamental não só na sua qualidade de vida, mas também na sua sobrevivência.
Neste campo, a literacia em saúde é fundamental: nem todas as vacinas são iguais e nem todas são igualmente adequadas a todos os doentes sendo que o aconselhamento pelo médico assistente de que vacinas prescrever e quando, é uma etapa fundamental no seu acompanhamento. Uma vez que no doente oncológico a resposta do sistema imunitário à vacinação pode ser inferior à expectável ou até estar contraindicada, a vacinação das pessoas que os rodeiam é outra forma potencial de prevenção ao diminuir o risco de transmissão de infeções no ambiente que rodeia o doente.
Quando falamos de vacinas que devem ser administradas para pessoas consideradas de risco de acordo com o PNV ou recomendações da DGS, no qual se inclui o doente oncológico, algumas vacinas devem ser consideradas: a vacina contra a gripe, vacina contra COVID-19 e a vacina contra Streptococcus pneumonia, uma bactéria que pode causar pneumonia, meningite e uma infeção generalizada (sépsis). A vacina contra a gripe deve ser feita todos os anos na altura do ano com maior incidência de doença, ou seja, na época Outono-Inverno. Situações especiais, como os doentes com leucemia ou outra doença oncológica do sangue que tenham feito transplante de células hematopoiéticas, também conhecido como transplante medular, apresentam um regime próprio de vacinação, mais alargado, pois são considerados como não sendo vacinados.
Considerando a complexidade do doente oncológico e os riscos associados, a vacinação pode ser um dos fatores diferenciadores que permitem que o doente tenha mais qualidade de vida e um menor risco de complicações. O conhecimento do PNV e das suas particularidades pelos doentes e seus médicos assistentes é fundamental, mas acima de tudo a promoção da sua execução de forma adequada e completa deve ser um compromisso das autoridades de saúde, assim como de todos os profissionais de saúde, para o bem maior de todos. Prevenir em segurança, como com a vacinação adequada, será sempre melhor que remediar.
*Presidente da Comissão Técnica de Vacinação
