A abrir

Descongelados

Com a inclusão de PCP e do BE na aliança de Esquerda que proporcionou a atual solução governativa, desbloqueou-se o sistema político em Portugal, confinado durante décadas a opções políticas baseadas em três partidos (PSD, PS e CDS-PP). As eleições autárquicas de domingo foram a primeira oportunidade para perceber o impacto que este "descongelar" teve em forças políticas que até tinham a crítica como principal forma de participação na gestão do país.

Uma primeira leitura leva-nos a acreditar que a transferência de votos da CDU, que perdeu dez autarquias, para os socialistas pode advir do descongelar da imagem do PS junto do eleitorado comunista. Ao viabilizar um Governo do PS, o PCP terá, desta forma, ajudado a legitimar perante o seu resiliente eleitorado a opção na "mãozinha". Enfraquecido na sua força autárquica, debilitado como força de protesto pelo entendimento parlamentar, resta ao PCP a capacidade de mobilização sindical e a tentação será grande.

Para avaliação do PCP não ajudará o facto de nas últimas eleições presidenciais o candidato comunista Edgar Silva ter obtido menos de metade dos votos do Bloco e deste partido ter ultrapassado novamente os comunistas nas eleições legislativas de 2015. Tudo durante a liderança de Catarina Martins. E se o BE participa também na atual solução governativa, não parece ter sido atingido da mesma forma. Manteve-se uma reduzida força autárquica, mas cresceu alguns milhares de votos no centros urbanos e se tivesse podido contar com João Semedo como cabeça de lista no Porto talvez conseguisse vereadores nas duas mais importantes cidades do país.

A luta política é com a Direita, mas os votos do BE e do PCP disputam-se primordialmente à Esquerda. E aí, para já, ganha o PS e o Bloco não perde. Até que ponto o PCP consegue retirar dividendos de uma situação política que já conduziu à queda das lideranças nos dois partidos da Direita e que se tem revelado benéfica, em sondagens e resultados eleitorais para a Esquerda, é o desafio. É nisso que Jerónimo de Sousa está a pensar quando ontem, a propósito das autárquicas, disse que há uma "ação persistente de desvalorização do papel do PCP na vida política nacional, silenciando a sua atividade e iniciativas, incluindo dando a terceiros e projetando noutros o que era o resultado da sua iniciativa e trabalho".

* SUBDIRETOR

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