Opinião

O país pequenino

O país pequenino

Rui Rio teve nervos de aço na preparação da sua candidatura à liderança do PSD. Esperou o momento certo, mantendo a pose ligeiramente distanciada em relação à condução do país e do partido, mas nunca tão crítica que o pudessem acusar de estar a minar as suas cores. E esperou, fazendo algumas reuniões, falando pontualmente de temas que tem cultivado, como a organização do país, o funcionamento da justiça, o papel da imprensa e alguma economia.

No congresso do PSD do ano passado, em Espinho, já toda a gente percebera que Rio esperava, e a sua ausência acabaria por ser criticada por dirigentes como Santana Lopes. Mas do seu solitário gabinete na Boyden, Rio esperava, evitando expor-se ao confronto, fugindo ao desgaste de se transformar prematuramente num alvo.

Esperou até ao arranque das autárquicas, quando não era preciso muito para perceber que a derrota se aproximava. E a partir daí agitaram-se as redes sociais, multiplicaram-se as presenças em atos de campanha, até ao desfecho que conduziria à saída de Passos Coelho e ao anúncio da candidatura de Rio.

Mas quem nas últimas semanas ouvisse, por exemplo como eu o fiz, os vários programas de comentário político nas rádios, perceberia que esperar muito tem consequências. Não é muito fácil encontrar um comentador que tenha palavras simpáticas para Rui Rio, antes pelo contrário, é possível ouvir coisas como "não sei quem é Rui Rio", sobre alguém que, entre outras coisas, foi 12 anos presidente da segunda cidade do país. Já para Santana Lopes não falta quem elogie a combatividade do "come back kid", reduzindo a luta entre os dois à caricatura de um confronto entre um "Cavaco" e um "Marcelo", e sabemos bem o que vale o nome do atual presidente na escala de preferências.

Desde que vi uma jornalista de política dizer que "Rui Rio desceu à cidade", a propósito de uma reunião de barões em Azeitão, percebi que aqueles que o incensaram a partir de Lisboa quando ele como autarca atacou o FC Porto e a cultura, que o elevaram a estrela do rigor e da independência, são os mesmos que agora o votam ao desprezo. A ignorância tem de facto muitos rostos e alimenta-se bem da distância e no preconceito.

Rui Rio tinha toda a razão quando um dia disse: "Num país profundamente centralizado como Portugal, lançar uma candidatura presidencial vencedora e nacionalmente reconhecida, a partir de uma cidade que não a capital do país, é uma tarefa muito próxima do impossível". Riram-se dele na altura, mas não tem graça nenhuma. Um país pequenino é isto.

* SUBDIRETOR

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