A abrir

Pânico moral

"Pânico moral" é um conceito de sociologia cunhado por Stanley Cohen, em 1972, para definir a reação de um grupo de pessoas baseada na perceção falsa ou empolada de que o comportamento de um determinado grupo, normalmente uma minoria ou uma subcultura, é perigoso e representa uma ameaça para a sociedade no seu todo.

O professor Stanley Cohen criou esse conceito no seu estudo "Folk devils and moral panics", que se debruçava sobre a reação social e dos meios de comunicação perante os movimentos dos "mods" e dos "rockers" dos anos sessenta, mas, se aterrasse nos anos 10 do segundo milénio em Portugal, bem que os personagens podiam ser finalistas de liceu ou os hooligans das claques de futebol.

Claro que, nos tempos que correm, estes são epifenómenos que logo serão substituídos pela próxima indignação coletiva (os pais que não vacinam os filhos?) e cairão (ou já caíram) no esquecimento, até que nova "notícia" os faça emergir. Mas tenho que, independentemente do juízo reprovável que possamos fazer sobre os comportamentos de finalistas ou claques, é o próprio "pânico moral" que suscitaram na sociedade que deveria ser julgado.

Os pais dos anos sessenta ainda podiam ser surpreendidos pela emergência dos comportamentos das novas tribos juvenis que, na altura, punham em causa a moral vigente. Mas encarar hoje com espanto os comportamentos alcoólicos das turbas juvenis ou os cânticos revoltantes das claques de futebol, só pode ser explicado pela hipocrisia reinante.

Só quem não quis ver é que não se apercebe da indústria que está montada para as excursões de finalistas, baseadas no consumo desenfreado de álcool e na javardice. As empresas acampam às portas das escolas e chegam a financiar associações de estudantes. Só quem não quis ver é que não sabe qual é o comportamento semanal das claques, numa indústria em que os jogos passaram para plano secundário e na qual o que se celebra diariamente é a conflitualidade reinante entre encontros.

Não, não me parece que estes grupos representem o que nós somos coletivamente ou que sejam, por si, uma ameaça para a sociedade. O que nos representa bem melhor é a fraca sociedade civil que somos, que deixa que eles medrem em silêncio, sem discussão, sem uma crítica consistente, para hipocritamente se indignar quando a onda mediática está para aí virada. Isto, sim, devia ser objeto de discussão coletiva e é bem melhor motivo para o nosso julgamento moral. Mas é certo que irá doer mais, porque poucos escaparão a ele.

* SUBDIRETOR

Conteúdo Patrocinado