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Opinião

Contar os mortos

Nos últimos dias, ganhou algum lastro a discussão sobre a estratégia seguida na Suécia e a defesa da sua eficácia comparativamente com a de Portugal. O debate tem um problema de base, porque não faz sentido uma fria contagem de cadáveres.

A que se soma a impossibilidade de avaliar, com o necessário distanciamento, situações cujo verdadeiro alcance só poderemos perceber daqui a vários anos. Vivemos uma situação nova, aflitiva, de dias incertos e desconfiados, em que é inevitável haver muitos erros cometidos. Mas trata-se de uma maratona e não de uma prova de velocidade, portanto não adianta querer discutir quem vai à frente com tanto caminho por fazer.

Ainda assim, o debate tem posto em cima da mesa dados que importa ter em conta. Desde logo, a tentativa de fazer comparações com números parciais de mortalidade. Não existe mortalidade covid e não covid. Existe mortalidade. Pessoas. Qualquer análise que venha a ser feita sobre como enfrentámos esta pandemia terá de olhar de forma global para todas as variáveis, enquadrando a mortalidade excessiva e o centramento da resposta dos serviços de saúde na covid.

Dos cuidados de saúde primários às cirurgias e consultas hospitalares, não faltam indicadores que mostram a evidente degradação dos serviços. Essa degradação tem um preço, de longo prazo. Tal como a alteração profunda na relação médico-doente, que é agora muito mais distante, terá um preço elevado. Os rastreios ou tratamentos que estamos a falhar vão traduzir-se em menos saúde, mesmo que a olho nu esses efeitos não sejam imediatos.

Igualmente de longo prazo são os impactos severos da pandemia e de muitas das medidas restritivas na saúde mental. Dos mais novos aos mais velhos. Por agora, vamos assistindo a alertas esporádicos de médicos, mas só o tempo dirá que marcas ficam destes tempos.

Os números explicam o medo que leva muitos portugueses a preferir um novo confinamento - são já 47% dos inquiridos, na mais recente sondagem JN/TSF. Com as infeções a registarem uma tendência crescente, nenhum de nós pode baixar a guarda. Mas cada medida que tomamos tem efeitos. E temos de adotar comportamentos preventivos sem que isso seja sinónimo de agravar os danos colaterais da luta.

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