Opinião

Conversar com Putin

Há no espaço do debate público uma nova corrente sobre a forma como o Ocidente deve abordar a invasão russa da Ucrânia. E que, com frequência, insiste na seguinte tese: tem de se conversar com Putin.

Do Eliseu ao Bundestag, esta corrente tem produzido eco. A infraestrutura da ideia tem no essencial duas premissas, assentes sobretudo no desgaste da persistência da guerra e no impacto brutal que começa a ter nas nossas vidas: primeiro, garantir que o chefe do Kremlin não se sinta encurralado, porque isso pode torná-lo mais perigoso. Em segundo lugar, dizem os teóricos da doutrina, é necessário acautelar a arquitetura de segurança do pós-guerra e que a Rússia continuará a existir sem ter que se ajoelhar perante a China.

Esta doutrina não é, à partida, desprovida de bom senso. Parece é partir de uma falácia inicial. E que não é nova. Não é nova nem na perspetiva histórica, e muito menos na relação que o Ocidente estabeleceu com Putin nas últimas duas décadas. À Europa deu jeito uma relação económica que permitisse construir gasodutos e oleodutos com que se abasteceu com energia barata.

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Putin, por seu lado, financiou e modernizou o seu exército, acrescentando, no decorrer dessa relação profícua, territórios à Federação Russa, que o Kremlin considera como "Estrangeiro próximo". Da Ossétia do Sul, na Geórgia, à Transnístria Moldava, à Crimeia Ucraniana, o Kremlin fê-lo sempre através da invasão e ocupação militar. As conversas continuaram, as sanções surtiram pouco efeito, os negócios foram aumentando, a estratégia de conquista de território tem o seu epílogo na maior e mais brutal invasão militar em território europeu neste milénio.

Dito isto, é preciso definir primeiro os termos da conversa. E, para o fazer, a Ucrânia deverá ter uma palavra vital. Porque os termos dessa conversa ditarão o desenho de segurança da nova ordem internacional. E darão um aviso severo contra as tiranias.

*Diretor-Geral Editorial

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