Opinião

Espasmo de aflição política

Espasmo de aflição política

O partido Chega tem representação parlamentar desde 2019. A estreia deu-se na XIV Legislatura da República. André Ventura esteve sempre por lá durante os cerca de dois anos e meio que durou. O PS de Costa já governava, e governava apoiado pelo PCP e o Bloco de Esquerda. Durante esses anos, multiplicaram-se casos de descoordenação e de fragilidade política. De recordar que Cabrita era ministro e era o heterónimo dos casos do Governo. Marta Temido já era ministra, e o Serviço Nacional de Saúde já estava em rutura. Noticiavam-se demissões, encerramentos de urgências, sangria de profissionais, atrasos crónicos no pagamento a fornecedores, enfim, um calvário. Foi a legislatura da pandemia, em que Portugal chegou a bater o recorde europeu de número de óbitos e de contágios.

Pedro Nuno Santos também já era ministro. E, apesar de não ter comunicado nenhuma decisão sobre aeroportos, renacionalizou a TAP com qualquer coisa como três mil milhões de euros dos impostos dos portugueses.

A anterior legislatura durou quase mil dias, durante os quais André Ventura não apresentou uma única moção de censura ao Governo. Perante tal quadro, com o mesmo primeiro-ministro, com os mesmos ministros (de quem pediu a cabeça), e sobretudo com as mesmas políticas e os mesmíssimos resultados, o deputado André Ventura, aquele que para muitos é o pináculo do "killer instinct" da política parlamentar nacional, não vislumbrou uma única razão para censurar o Governo.

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Agora, com um Executivo que tem apenas três meses de exercício, e legitimado por uma maioria absoluta, decidiu que era chegada a hora de apresentar uma moção de censura.

O que mudou, então, para Ventura ter mudado tanto? Simples: Rui Rio já não é líder do PSD. É Luís Montenegro, que veio para dizer que ia ser oposição e que iria haver menos diálogo com o PS. André Ventura parece ter sentido na pele a ameaça e temendo o novo posicionamento dos sociais-democratas reagiu. Reagiu como sempre reage, radicalizando. A moção de Ventura não foi verdadeiramente uma censura ao Governo: foi um espasmo de aflição política.

Diretor-geral Editorial

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