Primeiro, era preciso apurar responsabilidades. Morreram 64 pessoas que deram uma dimensão incomensurável ao drama sazonal dos incêndios, mas a maior tragédia de que há memória no país não chegava para exigir prestação de contas. Sucederam-se pedidos de relatórios, grupos de trabalho, pedidos de esclarecimento, mas às repetidas perguntas quem nos governa foi sempre respondendo o mesmo. Aguardavam-se as conclusões do relatório da comissão técnica independente que avaliou a noite de 17 de junho em Pedrógão Grande.
Agora que o relatório foi entregue, o primeiro-ministro continua a prometer tirar as ilações que houver a tirar, mas só depois de o analisar. O presidente da Autoridade Nacional de Proteção Civil remete esclarecimentos para depois de estudar o mesmo documento - já lido e relido na praça pública. Quanto à ministra da Administração Interna, assegura a pés juntos que não se demite.
Quem aterrasse subitamente no país e ouvisse as declarações dos responsáveis técnicos e políticos pensaria que o relatório não é suficientemente claro quanto ao que falhou. Só que é preciso andar mesmo noutro mundo para não ler tudo preto no branco. A Proteção Civil é arrasada de alto a baixo - desde o presidente que forneceu informações falsas à ministra, aos comandantes operacionais inexperientes (nomeados nas vésperas da época crítica) que tomaram decisões erradas.
Mais falhas? O Governo errou ao não antecipar a Fase Charlie (com mais meios de combate), apesar dos avisos de que o risco seria elevado. Há ainda um discurso duro no relatório quanto à falta de capacidade e formação dos bombeiros, mas que não se cometa a injustiça de encontrar nas associações de voluntários um bode expiatório. Quem define o sistema de Proteção Civil, o modelo de socorro e os meios envolvidos? Quem financia e contratualiza com as corporações? O Governo, claro.
Após os anos difíceis de 2003 e 2005, António Costa surpreendeu o país ao pôr a GNR a apagar fogos, uma das medidas mais emblemáticas da reforma da Proteção Civil produzida pelo então ministro da Administração Interna. Daqui a uma semana, quando se sentar para um Conselho de Ministros extraordinário sobre o relatório, é bom que o Governo tenha anúncios surpreendentes para fazer. Medidas corajosas, efetivas e dotadas da respetiva dotação orçamental. Mas não só. O país exige mais. O presidente da República pediu mais. António Costa está à espera de quê para apurar, como prometeu, responsabilidades?
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