Opinião

A origem do mal

Primeiro, incredulidade. Vê-se o cano da arma, a disparar sem descanso, como se fosse tudo de brincar. Lá em casa há jogos assim. O jogador adivinha-se, não se vê, faz-nos deixar adivinhar. Pode ser qualquer um por detrás daquele metralhar. São jogos, têm nomes, e há sempre uma guerra no jogo onde se mata sem se sentir e uma guerra fora do jogo, entre pais e filhos, a limitar e a ceder para voltar a limitar e a ceder.

Depois o horror. Aquela matança em direto nas redes sociais não é de brincar. É um fanático que prime o gatilho, em imagens sucessivas de gritos de morte e de pessoas-pessoas a caírem. E a arma carrega uma e outra vez. Sangue verdadeiro. Loucura verdadeira, a trazer à memória essa outra matança numa escola brasileira, de motivações diferentes, ambas de um mundo ensandecido que não conseguimos compreender.

Mas temos de tentar. A começar no papel dos media, que está sempre a ser questionado, dentro e fora das redações. É exatamente aqui que o papel da mediação e do escrutínio deve ser valorizado. O vídeo do atirador da Nova Zelândia esteve horas online em várias plataformas. Sem filtros, sem edição, sem contexto. Como se fosse o ambiente de jogo em streaming em que atualmente milhões de crianças e jovens em todo o Mundo jogam. Foi num desses jogos que o terrorista diz ter aprendido o nacionalismo étnico.

O papel dos media não é ignorar essa realidade. Mas é ter sentido de responsabilidade na informação que publicam. Editando, cortando o que deve ser cortado, explicando o que deve ser explicado. Contribuindo para uma leitura crítica do contexto em que o ódio germina, não para a sua exibição voyeurista.

Sobra a origem do mal. As motivações raciais e religiosas. No manifesto publicado online pelos terroristas percebem-se as referências alusivas a outros ataques e a mensagem anti-imigração não podia ser mais clara. E essa é uma reflexão que, não sendo nova, nos é muito cara e próxima. A Nova Zelândia é considerada uma das nações mais seguras do Mundo. O que potencia a mensagem de que não há espaços seguros. O extremismo e a intolerância crescem em diferentes geografias, temos tido demasiados exemplos disso. E num momento tão relevante para a Europa, em que vamos ter eleições e desafios como o Brexit, não podemos desviar-nos das batalhas que realmente importam.

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