Não é falar para o umbigo. Nem dor de classe. Mas não se pode ouvir o primeiro-ministro de Portugal, homem com um histórico familiar de respeito e de luta pelos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos, dizer o que disse na casa da Democracia e fazer de conta que não disse.
Abrir aspas e citar. "Um dos maiores problemas do país é a péssima qualidade da nossa informação". E mais. Em Portugal, a informação "só desperta para o problema no meio da tragédia e esquece-se habitualmente do problema na hora certa de prevenir que a tragédia possa vir a ocorrer".
António Costa tecia essas considerações, chamemos-lhe assim, a propósito dos incêndios de Pedrógão Grande, em junho, e no Centro e Norte, em outubro, numa das maiores tragédias que a memória coletiva pode suportar. Dezenas de mortes, prejuízos incalculáveis, uma parte substancial do país esquecido reduzido a cinzas.
Não vale a pena revolver na dor das gentes que tudo perderam. Mas houve negligência na prevenção, incompetência no combate, descontrolo no socorro. Está tudo dito e escrito. E em relatórios independentes elaborados por especialistas independentes. Foi o Estado que falhou com o país. E, por via do Estado, quem gere os seus destinos, os do passado e os do presente.
Numa leitura mais benévola, as despropositadas declarações do primeiro-ministro poderiam ser enquadradas na necessidade de o Governo criar um novo adversário, reduzido que está no Parlamento às discussões mais incisivas com a líder do CDS. E os órgãos de Comunicação Social são sempre um alvo fácil e apetecível, num tempo em que se lê cada vez menos e se sabe cada vez menos, apesar da crença no contrário alimentada pelas redes sociais sem escrutínio.
Atacar o ofício do jornalismo, que tem inúmeros alçapões e que é também ele vítima dos seus descuidos, é ajudar a alienar sociedades cada vez mais suportadas na felicidade aparente dos outros no Facebook e no Instagram.
E António Costa não disse o que disse porque o Governo está efetivamente preocupado com o futuro de uma profissão que é uma das pedras basilares das sociedades democráticas, assente no princípio de que o Direito à Liberdade de Expressão é o primeiro dos Direitos e a razão de ser de todos os outros.
Disse-o porque a Imprensa é, insiste-se, um alvo fácil na vaga populista que cresce na Europa. Em Portugal também. Mas não é por encontrar desculpas fáceis que a realidade deixará de ser o que é. Nem que a memória turve o luto do que foi.
* DIRETOR-EXECUTIVO
