Que preocupações carrega o presidente da República para, ao longo do seu mandato, persistir tanto nos alertas contra o populismo e nos apelos à defesa da democracia? Contra "o aventureirismo de realidades fora do sistema". Recordando a experiência da ditadura para "não querer ensaiá-la outra vez".
Porque tem tanta necessidade em declarar-se confiante de que os portugueses "não trocam a democracia por uma ditadura?". E de explicar que, "a pretexto de ensaiar novas fórmulas que se dizem democráticas iliberais ou na margem das democracias", há a possibilidade de "rapidamente resvalar para ditaduras".
Não é um acaso. Nada é um acaso em Marcelo. Fê-lo mais persistentemente até agora porque deixa de ter margem em 2019, ano que abre um ciclo de eleições quase contínuo até 2024, em Portugal e na Europa, com europeias, legislativas, regionais, autárquicas e presidenciais. E a Europa, e o Mundo, a que dedica sempre mais atenção quando alerta para os populismos, estão a atravessar derivas perigosas para a construção democrática.
Mas trazer os fantasmas do passado português, como fez esta semana, ultrapassa a tentação em que alguma Direita cairá de o acusar de mais uma vez estar a levar o Governo ao colo. Marcelo tem a perceção clara de que os extremismos não são um problema que só germina nos outros países.
Portugal é hoje um país mais cavado ao meio. Mais radicalizado no discurso político, que esta legislatura não atenuou, mais extremado na forma como os portugueses olham para os políticos, no que os sucessivos casos de falta de transparência acentuaram, mais viral nos protestos. É um país que carrega muito da sua pobreza endémica, económica e cultural. E um país assim, que corre depressa ao sabor do que diz o vento, é fácil de tomar. Poucas vezes temos tempo para pensar nisso. Talvez a serenidade e a paz que o Natal nos proporciona também nos inspirem a pensar o futuro. Bom Natal.
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