Vamos começar por Rui Rio. Passar por Costa. E acabar no país, que é o que verdadeiramente importa. O líder do PSD foi eleito há cem dias e entronizado há 60. O "homem só" andou desaparecido, a apanhar os cacos das divergências internas, mais os que ele entretanto criou. E ao fim deste tempo apertou a mão a António Costa, firmando dois acordos. Negociados por dois homens do PSD, sem que um soubesse o que o outro tinha em mãos, sem que o partido soubesse fosse o que fosse. Mas Rio é assim.
Dizem pouco. Traduzem pouco. Mas ambos os protagonistas ganham. Os portugueses gostam de consensos e de quem não lhes levanta problemas. Rio fica com a imagem de estadista, preocupado em primeiro lugar com o país, depois com o partido e por último consigo próprio. Foi ele quem o disse. Por momentos, deixou-se de falar do CDS, para se ouvir os incómodos do PCP e do Bloco. Costa alarga o seu eleitorado e descola da Esquerda, sossegando a Esquerda com a bola. O jogo ainda vai a meio. Foi ele quem o disse.
Quem dos dois ganhará mais, só na mesa do voto. Mas o líder do PSD só tem uma hipótese. Subir nas intenções de voto.
Agora os acordos. São vazios. Insiste-se. Mas têm relevância. Política. Nos fundos estruturais, o dinheiro que há de vir para Portugal no próximo quadro comunitário de apoio, há um número em cima da mesa: 30 mil milhões. Foi quanto o Governo de Passos conseguiu no último pacote, é quanto se espera do Governo de Costa. Não vai ser fácil. A saída do Reino Unido significa menos dinheiro a entrar. E a Europa prepara-se para dar prioridade à Defesa. Pressão. De Rui Rio. Lá mais para a frente.
Sobra a descentralização. O bicho-papão. Joga-se com o sentimento do país. Lisboa acha que o Porto quer protagonismo. O Porto queixa-se de Lisboa. Bragança queixa-se do Porto e de Lisboa. Viseu de todos. Faro não quer problemas. Na verdade, trata-se de tirar ao poder central para dar aos territórios, que gerem melhor porque conhecem melhor as necessidades das populações do que o Terreiro do Paço.
Rio e Costa querem. E carregam com uma comissão técnica para ver o que de melhor se faz lá fora. Nas entrelinhas, está escrita a intenção de criar um segundo nível de poder entre autarquias e poder central. Nas linhas, dar mais dinheiro aos municípios. É só um princípio. Se os dois ganharem, ganha o país.
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