Somar anos. Se as variáveis não se alterarem, se a economia continuar a crescer e a famosa devolução de rendimentos se mantiver, mesmo a conta-gotas, a travessia no deserto do PSD não termina com a saída de Pedro Passos Coelho. Mas as exigências vão ser maiores. Para Rui Rio.
O ex-autarca do Porto fez tudo bem. O culto e o oculto. Trabalho de formiga. Correu o país. Bateu às portas das estruturas locais do PSD. Juntou barões e fez-se rodear de alguns autarcas da nova geração. Os poucos que resistiram à sangria das autárquicas de 2013. Fez-se ouvir nos momentos certos. Desejou e fez-se desejado.
Faltava-lhe Lisboa. Faltava-lhe o Porto. Que lhe vão cair no regaço por falta de alternativas. Luís Montenegro e Paulo Rangel hipotecaram uma corrida à liderança sem justificações que se percebam. E Pedro Santana Lopes pouco mais é do que autodesejado. Diz que está a refletir para que reflitam nele.
Mais amado fora do que dentro do partido, que o teme mais do que o ama, Rui Rio tem um longo e solitário caminho a fazer. Mas só ele se pode queixar de si próprio. O que se chama resgatar o partido da Direita onde os barões dizem que está encostado. Recuperar a social-democracia que os mesmos barões dizem que se perdeu pelo caminho. Ter um programa de elevação de autoestima a ser feito das bases para cima, esperando as cúpulas um regresso rápido ao poder. No que será um lento e sofrido regresso ao poder. Dizer ao país que PSD novo, ou antigo, é esse que quer construir.
É um percurso armadilhado para um partido que vai chegar às legislativas de 2019 pouco melhor do que está hoje. É um tempo de grande desgaste, sem voz no Parlamento.
Sobra a relação de otimismo reinante entre Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa. E a luta de protagonismo entre Bloco e PCP.
Marcelo começou a reposicionar-se antes das eleições autárquicas e realinhou definitivamente no discurso do 5 de Outubro. Sete minutos para dizer ao Governo que a política é muito mais do que o curto prazo. Que continua à espera de saber o que aconteceu em Tancos. Que os portugueses precisam de se sentir seguros. Que a justiça é lenta.
Costa podia, mas não vai, dar-lhe de presente a demissão dos ministros da Defesa e da Administração Interna. E essa é a justa dimensão da fragilidade do poder da palavra de Marcelo. Que a chegada de Rui Rio à liderança não fortalece. Antes pelo contrário, acentua. Virar à direita, como dizia o presidente em Andorra, é dar a mão a Rio, de quem é mais próximo do que de Pedro Passos Coelho. E Marcelo quer ser o presidente de todos os portugueses.
Sem Passos como problema, quem vai ser o problema?
* DIRETOR-EXECUTIVO
