Alguém desenhou a carvão dois corações na porta da corte do gado. Falta-lhe a seta do Cupido. Em vão. A aldeia está abandonada. Deixem-me pegar, sem autorização do próprio, nesta ideia que se arrasta na minha memória há 25 anos. Foi escrita por Francisco Mangas, então jornalista e escritor, hoje só dedicado às páginas dos livros, em longas reportagens pelas terras perdidas onde nos misturámos, e assalta-me de cada vez que enchemos a boca com a desertificação do interior. De cada vez que as tragédias dos fogos destroem vidas ao ritmo que dizimam florestas. De cada vez que se grita pelo fim do Mundo.
O fim do Mundo não é o apocalíptico. É a sensação de abandono que se vive no interior e que se estende como uma mancha até às três ou quatro grandes concentrações urbanas do país.
O fim do Mundo, as portas negras com corações desenhados sem a seta do Cupido, está já em grandes manchas a 30 ou 40 quilómetros do Porto, a entrar pelas entranhas de Braga, nas portagens de Leiria.
É um vazio que se alastra até à insensibilidade social pelo que se passa a escassos passos de nós. Foi isso que Marcelo Rebelo de Sousa, o homem-presidente, como se assumiu com dor não fingida, percebeu quando, politicamente, entre o país e o Governo escolheu o país, destapando o divórcio com a sociedade que António Costa tem vindo a cavar fundo. E que ele apontou, como apontou sem discrição ao PCP a transfiguração que atravessa um partido que é, ou era, das pessoas.
A ele, que lança a seta do Cupido às populações desamparadas, já não sobra margem de recuo. Não se pode enfraquecer aos olhos de quem andou a abraçar. A António Costa, que se mostrou inábil perante a crise, ele que é tão hábil no tabuleiro da política, sobra apenas o tempo de refazer uma liderança que perdeu. Do país.
É por tudo isso que são tão importantes os sinais que saírem do Conselho de Ministros extraordinário marcado para hoje. Não se fazem grandes reformas, como a necessária para a floresta, sem um olhar sustentado, substantivo e continuado.
O interior precisa disso. Porque as crises fazem e desfazem lideranças. Marcelo mostrou-se um líder. E Costa? Vai ser?
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