Tantas vezes o chamamos que há de haver um dia em que ele vem. O lobo. A história dos homens está cheia desses lobos que se agigantam e que começam por ser apenas uma mentirinha. É isso que António Costa não percebe, ou não quer perceber, quando diz que o seu ministro Adjunto cometeu "um lapso" ao acumular as funções governativas com as de uma empresa sua, criada com a mulher no momento em que jurava fidelidade ao serviço do país.
A história tem dois planos, fáceis de perceber. Pedro Siza Vieira ostenta um currículo soberbo, de percurso que gostamos de ver a gerir os destinos do país. Mas nesse currículo constam funções como advogado numa firma com múltiplos negócios diretos ou indiretos com o Estado. Para chegar a ministro, numa missão de sacrifício onde vai ganhar menos e expor-se mais, tem de ser sério e parecer ainda mais.
No plano legal, pareceu pouco. Do "lapso" não constam negociatas, presentes ou futuras, embora não se perceba bem os propósitos da criação de uma empresa que não existe para fazer negócios, mas apenas "o lapso" do desconhecimento da lei, como o próprio invoca, inaceitável num jurista. É um "lapso" legal cuja gravidade cabe à Justiça decidir.
No plano político, o "lapso" revela um modo de estar que desacredita profundamente a classe política, acentuando o varrimento populista que alastra na Europa e ao qual Portugal parece ainda estar imune. Porque os eleitores olham cada vez mais para os governantes, os deputados, os autarcas, os líderes partidários como primus inter pares. E não há democracia que resista à perceção de falta de transparência.
Esse é um "lapso" no domínio da ética e da moral que cabe ao primeiro-ministro avaliar.
Num momento em que avança para o seu congresso, António Costa e o PS, que quererão fazer do conclave um hino ao Governo e o tiro de partida para um ano eleitoral, com discussões ideológicas internas e o fantasma de Sócrates a pairar, têm obrigação de eleger a falta de clareza e de transparência na gestão da coisa pública como a maior ameaça ao nosso modo de vida.
Mas não só. O presidente da República, o único a alertar frequentemente para o perigo dos homens providenciais e dos populismos, corre também ele o risco de ser corresponsável pela deriva populista. Ninguém questiona da genuidade dos afetos do presidente. Não pode, portanto, ser ele próprio a lançar a dúvida quando abraça um Jorge Jesus consternado pela derrota na Taça de Portugal com a mesma expressão de pietà com que abraça uma velhinha que perdeu tudo na tragédia dos fogos.
A questão é que um homem é, também ele, uma presa dos seus afetos.
A questão é que na história do Pedro e do lobo um dia o lobo vem.
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